Que a forca está de guarda aos teus bezerros d'oiro.
E chama-se Progresso, ó Deus, esta farçada!
Isto é o cinismo alvar e em pêllo, à desfilada,
É a prostituição ignobil da mulher,
São desejos brutaes, é carne em plena orgia,
Emfim a saturnal da podre burguezia,
Que resa como o papa e ri como Voltaire.
Morrendo o velho Deus, o velho Deus tirano,
Este mundo burguez, catholico-romano
Encontrou-se sem fé, sem dogma, sem moral;
A justiça era elle o Padre-omnipotente;
Esse Padre morreu; ficou nos simplesmente
Um unico evangelho—o codigo penal.
A consciencia humana é um monte de destroços.
Foram-se as orações, foram-se os padres-nossos,
Tombou a fé, tombou o céo, tombou o altar;
E o velho Deus-castigo e o velho Deus-receio

É simplesmente um freio

Para conter a raiva á besta popular.
A crassa burguezia, essa recua fradesca,
Opipara, animal, silenica, grotesca,
Namora a Deuza-carne e adora o Deus-milhão;
E as almas, fermentando assim n'esta impureza,
Resvalam sensuaes do leito para a meza.

Da meza para o chão.

Vendem-se a peso d'oiro as languidas donzellas,

Mais torpes que as cadellas,

Que ao menos dão de graça o libertino amor,
E o Dever, a Saude, o Justo, o Verdadeiro,
Esses ricos metaes fundem-se no brazeiro
D'um sensualismo espresso, atroz, devorador.
A agiotagem, a bolsa, a cotação dos fundos,
É o principio rei dominador dos mundos,
É um sangue vital, forte como o cognac.
Engordae, engordae ó bravos homens serios,
Que servis para dar esterco aos cemiterios

E musica a Offenbak.

A vergonha morreu, a dignidade foi-se.
O mundo official è um vergonhoso alcoice,
E a plebe tripudiando em horridas orgias
Lança sobre o Direito um pustulento escarro,
E acende, cambaleando, a ponta do cigarro
Na fogueira que abrasa o Louvre e as Tulherias.
A familha é um bordel. Os leitos sensuaes
São verdadeiramente esgotos seminaes,

Eroticas latrinas,