Do carcere. Torcia,
Para os partir os ferros da prisão,
Crispando as unhas convulsivamente
Com a furia d'um leão,
Batalha inutil, desespero ardente!
Quebrou as garras, depenou as azas
E hallucinado, exangue,
Os olhos como brazas,
Heroe febril, a gotejar em sangue,
Partiu n'um vôo arrebatado e louco.
Trazendo dentro em pouco
Preso no bico um ramo de veneno,
E bello e grande e tragico e sereno
Disse:
«Meus filhos, a existencia é boa
Só quando é livre. A liberdade é a lei.
Prende-se a aza, mas a alma vôa...
Ó filhos, voemos pelo azul!... Comei!—»
E mais sublime do que Christo quando
Morreu na cruz, maior do que Catão,
Matou os quatros filhos, trespassando
Quatro vezes o proprio coração!
Soltou, fitando o abade, uma pungente
Gargalhada de lagrimas, de dôr,
E partiu pelo espaço heroicamente,
Indo cahir, já morto, de repente
N'um carcavão com silveiraes em flôr.
E o velho abade, livido d'espanto,