Exclamou afinal:
«Tudo que existe é immaculado e é santo!
Ha em toda a miseria o mesmo pranto,
E em todo o coração ha um grito igual.
Deus semeou d'almas o universo todo.
Tudo o que vive ri e canta e chora...
Tudo foi feito com o mesmo lodo,
Purificado com a mesma aurora.
Ó misterio sagrado da existencia,
Só hoje te adivinho,
Ao vêr que a alma tom a mesma essencia
Pela dôr, pelo amor, pela innocencia,
Quer guarde um berço, quer proteja um ninho!
Só hoje sei que em toda a creatura.
Desde a mais bella até á mais impura,
Ou n'uma pomba ou n'uma fera brava,
Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!...
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Ah, Deus é bem maior do que eu julgava!...»
E quedou silencioso. O velho mundo,
Das suas crenças antigas, n'um momento,
Viu-o sumir exhausto, moribundo
Nos abysmos sem fundo
Do tenebroso mar do Pensamento.
E chorou e chorou... A Egreja, a Crença.
Rude montanha pavorosa, escura,
Que enchia o globo com a sombra immensa
Dos seus setenta seculos d'altura;
O Himalaia de dogmas triumphantes,
Mais eternos que o bronze e que o granito,
Onde aos prophetas Deus falava d'antes
Entre raios e nuvens trovejantes
Lá dos confins siderios do infinito;
Esse colosso enorme, em dois instantes
Viu-o tremer, fender-se e desabar
N'uma ruina espantosa,
Só de tocar-lhe a aza vaporosa
D'uma avesinha tremula, a expirar!...
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E, arremessando a biblia, o velho abade
Murmurou:
«Ha mais fé e ha mais verdade
Ha mais Deus com certeza
Nos cardos secos d'um rochedo nú
Que n'essa biblia antiga... Ó Natureza,
A unica biblia verdadeira és tu!...»