Tem a força na cauda e o veneno nos dentes.
A VALLA COMMUM
I
Valla commum—tasca nojenta,
Mesa redonda sepulchral,
Aonde a toalha crapulenta
É um lençol roto do hospital,
E aonde as larvas proletarias
Devoram—lugubres festins!—
Craneos de heroes, ventres de parias,
Carcassas podres de arlequins,
Ao contemplar-te, ó libertina,
Um nojo immenso me accomette:
Tens a avidez de Messalina
Na boca negra de Machbet!
Na treva aziaga o crime o os vicios,
Para o menu do teu jantar,
Dão-te as creanças dos hospicios
E as barregãs do lupanar.
Em teu estomago de hyena
Vão-se abysmar, monstro cruel,
Rios de sangue com gangrena
E ondas de lagrima com fel.
Cloaca putrida e funerea,
Feira da ladra edionda e vil,
És o saguão onde a miseria
Despeja á noite o seu barril.
Trituras, lobrega sargeta,
Sem que o horror te engasgue e abafe
Os seios virgens de Julieta
E a pança obscena de Faltstaff.
Cinismo atroz que a alma oprime,
Fetida e funebre impudencia!
A boca esqualida do crime
Posta na boca da innocencia!
O abutre e a pomba, o cardo e a anemona
Na mesma leiva apodrecida:
Tropman chegando-se a Desdemona,
E Papavoine a Margarida!
Virtude, amor, crime, deboche
Promiscuamente a fermentar!
Mimi Pinson e Rigolboche!
Cain e Abel! estrume e luar!
Oh, bulimia tenebrosa!
Monstruosidade apocalyptica
Tudo te serve: ou cancro ou rosa,
Ou flôr doirada ou flôr syphlitica.
Anjos que vem do paraiso,
Candura etherea e perfumada,
Feitos d'um beijo e d'um sorriso,
N'algum jardim, de madrugada.
Vão confundir-se n'essa guella,
N'essa pestifera anarchia
Com quantas lepras uma viella
Possa escarrar n'uma enxovia!
As guilhotinas homicidas
Pelo carrasco, o fiel criado,
Mandam-te o lunch ás escondidas
No seu panier ensanguentado,
E o cadafalso, um salteador,
Na noite livida estrangula
Feras, que arroja no estertor
Aos antros podres da tua gulla.
Nada que te encha ou te sufoque.
Monstro, absorver é o teu destino.
Depois da ceia de Moloch,
Ruges co'a fome de Hugolino
Sempre a comer, monstro insensato,
E a boca sempre escancarada!
O esquife, harpia, eis o teu prato!
E o teu talher—a pá e a enxada!
Valla commum, despenhadeiro
De lirios brancos e de sapos,
Furna onde o Nada, esse trapeiro,
Faz o armazem dos seus farrapos.
Quantos heroes—oh raiva, oh odio!
Teu lobo amargo apodreceu
Desde Aristogiton e Harmodio
Até Camões e Galileu!
Deus que te fez sempre esfaimada,
Deu-te tambem, pança gigante,
Por cosinheiro Torquemada,
E Bonaparte por marchante.
Atila e Nero—o tigre e o lobo,
Noventa e tres, Saint Barthelemy,
Eis hecatombes para o globo
Que são banquetes para ti.
Quando famelica te nutres
D'um Warterloo, grandiosa prosa,
Sustentas todos os abutres
Só co'as migalhas da tua mesa!
Para o teu ultimo festim,
Gargantua sordido e voraz,
Foi aos açougues de Berlim
A Morte a encher o seu cabaz.
Es magro e funebre molosso
Ha milhões d'annos sempre a uivar:
Ó Guerra, traz-me o meu almoço!
Ó Peste, traz-me o meu jantar!
Servo, Fellah, Moujik, Escravo,
Plebe sem pão, mendigos nús,
Bocas que tem ainda o travo
Do fel da esponja de Jesus;
Martyres, victimas, proscriptos,
Legião de heroes resplandecente,
Que ensanguentados e maldictos
Revoluteiam febrilmente,
Raios no olhar, grilhões nos pulsos,
Ao céo em brasa a fronte erguida,
Nos sete circulos convulsos,
Do inferno tragico da Vida;
Todo esse exercito ululante
Quo em rouco e pavido tropel
Vem pela historia humana adiante,
Desde Cain até Rossel;
Tudo que estoira de miseria,
Tudo o que ruge na oppressão,
Desde o grilheta da Siberia
Até ao paria do Indostão;
Todo esse barbaro massacre,
Da guerra, enorme Leviatan,
Zama, Farsalia, S. João d'Acre,
Jena, Austerlitz, Sedan;
Todo esse vomito de horrores
E do catastrophes sombrias,
Profundo atlantico de dores,
Negro Himalaia de agonias,
Todo esse lodo Deus impelle-o
Ao teu estomago sem dó:
És a barriga de Vitellio,
Cheia das pustulas de Job!...
II
E entre esse tabidos fermentos,
Entre esses horror de coisa más,
Fóssa á procura de alimentos,
Um porco immundo—Satanaz.
Essa latrina de Pandora,
Pensando bem, é a final
A escarradeira onde expectora
Jehovah a bilis immortal.
Como elle é velho, com o frio
Tósse; o Prudhome diz-lhe então:
—Deus, aqui tens este bacio...
Não vás cuspir no meu salão.
E ás vezes do alto do infinito,
Talvez depois d'um mau jantar,
O Padre Eterno faz cabrito
E enche o bacio a transbordar.
E o pote enorme onde cuspinha
O truculento Manitu,
Sem ninguem vêr, logo á noitinha
Vai despejal-o Belzebut.
Vai despejal-o, ó crueldade!
Lá nessas torridas galés,
Onde Deus assa a humanidade
No fogo—a que elle aquece os pés!
Porque, ó eternos desherdados
Da raça impura de Cain,
Morrendo sois encaixotados
Sem agua benta e sem latim.
Se algum vos dão é já com ranço,
É já latim para hospitaes,
Feito com cisco de ripanso
E as varreduras dos missaes.
A egreja dá, barata feira!
Ao vosso ultimo estertor
Oleos de azeite de purgueira
E ostias de trapos com bolor.
Por isso a valla é um alçapão
De d'onde rue a todo instante
Um tremedal de podridão
N'um mar de enxofre flammejante.
Castigo barbaro e nefando!
Em monstruozos caldeirões
Ondas de pez tonitruando,
Roucos, uivando, aos borbotões,
E dentro vós, pobres captivos,
Em sangue, em chagas, todos nus,
A morrer sempre e sempre vivos,
Sempre a coser e sempre crus!
Em lagos rutilos de estanho,
Bramindo pragas em latim,
Milhões de herejes tomam banho...
Olhae que espiga um banho assim!...
Estes frigidos em certans,
Dentro do azeite que extravasa.
Outros perneando, como rans,
Na empalação d'um raio em brasa!
Uns são torrados sobre grelhas.
E os diabos vem continuamente
N'aquellas nadegas vermelhas
Cravar com furia o seu tridente!
Muitos estoira-lhes a pança
Entre os colericos anneis
De vinte cilhas, que lembrança!
Feitas de cobras cascaveis!
E em torno aos fulgidos brazeiros
Onde um bom Deus, poderoso e justo
Rebenta as almas aos milheiros,
Como as castanhas n'um magusto,
Pincham selvaticos fandangos
Satans freneticos e maus,
Rabudos como ourangotangos,
Cornudos como Menelaus!
E é por não dar uns seis ou sete
Tostões ao odre de um abade
Que a Providencia vos derrete,
Impios, por toda a eternidade!
Congrua e folar—palha e bolota
Ao teu abade, impio, não dás?
Pois bem, Deus põe-te de compota
N'um molho ardente de aguarraz.
Ah, tu rebelde, ah, tu faminto,
Nunca a chorar foste depor
Tres mil remorsos com um pinto
Nas mãos d'um padre confessor?
Ah, tu mandaste a Egreja á fava?
Nunca compraste uma cartilha?
Cose-te em pez, torra-te em lava.
Anda, meu besta, meu pandilha!
É em quanto Deus te frita os untos
E o coração n'uma panella,
Que vida airada os bons defunctos
Passam no céo!... que vida aquella!
Pois cá por baixo aos maganões
Nunca tambem lhes faltou nada;
Tiveram crenças e milhões...
Deus gosta assim de gente honrada.
Comeram optimos jantares,
Perfeitamente digeridos;
Foram christãos e titulares.
Bons paes, bons filhos, bons maridos.
Aos seus palacios luculianos
(O que é virtude e pundonor!)
Durante quasi oitenta annos
Não bateu nunca um só credor!
Amaram todos os pecados,
Que são mortaes, mas são gentis,
Com todo o encanto fabricados
Para os banqueiros, em Pariz.
Dormira sempre n'um bom leito
Co'as mais formosas cortezãs.
E o ventre sempre satisfeito,
E livre... todas as manhãs.
Gozaram sim, mas na verdade
Foram á missa muitas vezes,
Com toda a pompa e magestade
Dentro dos seus landeaus inglezes.
Se algum remorso impertinente
As almas castas lhes mordia,
Catava-o logo com um pente
Um bispo n'uma sacristia.
Crendo nos dogmas mais profundos,
E achando a vida um bom lameiro
Tiveram sempre Auctor dos Mundos
Por um perfeito cavalheiro.
Deram de graça a varios santos,
A Jesus Christo e á mãe das Dôres
C'roas, chinós, tunicas, mantos,
Burseguins d'oiro e resplendores.
Por isso o tal Author, que acabo
Do vos citar, os tratou bem;
Deus é levado do diabo
Só para os pulhas sem vintem.
E quando ao cabo da funcção,
—Velhos sem dentes, já na espinha,
A Morte, de chapeu na mão,
Lhes foi tocar á campainha,
Para espicharem dignamente,
Agasalhados na sua cama,
O papa enviou-lhes de presente
A benção n'este telegrama:
«Remete benção Divindade.
Legado Pedro quinze contos.
Escrevi céo Hotel Trindade
Tenham chegada quartos promptos.»
E após um grande funeral,
A que assistiu o high-life inteiro,
Desde o arcebispo ao general
E desde o principe ao banqueiro,
Seus corpos, onde não remexe
O verme vil que trinca os parias
Embalsamados do escabeche
Em grandes latas funerarias,
No palacete d'uma campa
Foram guardados, qual thesoiro,
Dentro d'um cofre em cuja tampa
Ha versos maus em letras d'oiro.
E as almas, promptas para a festa
Do seu olimpico noivado,
Com uma aureola na testa
E azas soberbas no costado,
Partiram leves, subrepticias.
Entre o esplendor de cem auroras,
Lá para o Reino de Delicias.
Onde estarão a estas horas
Feitas bebés, comendo um keque,
Tocando frauta ou tamboril,
Ou arrastando a aza em leque
Ingenuamente... ás onze mil.
Ah, miseravel, ah precito,
Que lá dos baratros christãos
Ergues ao Tigre do infinito
Os dois archotes das tuas mãos,
Vê tu como é conveniente,
E justo em todos os sentidos,
Herdar um homem d'um parente
Seiscentos contos garantidos,
Gozar, sem medo á vida eterna,
Toda esta bella patuscada,
Desde a luxuria mais moderna
Á gula mais civilisada,
E ao terminar tão bom fadario
Morrer, ouvindo alguns latins,
Com treze kilos de calcareo,
—Onze na alma, e dois nos rins;
E, na mais intima harmonia
Com Satanaz e com Jesus,
Ir para a cova á luz do dia,
De farda rica e de gran-cruz,
E entre tocheiros deslumbrantes
Ser bem comido e bem jantado
Por alguns vermes elegantes
N'um gabinete reservado!...
A SÈSTA DO SNR. ABADE
O meio dia bateu já na torre da Egreja.
A aldeia é silenciosa e triste. O sol flameja.
Entre o surdo murmurio abrasador da luz,
Como n'um grande forno, os grandes montes nus
Recosem-se, espirrando as urzes d'entre as fragas.
Um mendigo demente e coberto de chagas
Dorme estirado ao sol n'uma modorra espessa;
E o mosqueiro febril nas lepras da cabeça
Enterra-lhe zumbindo o caustico das lanças.
Andam só pela rua os porcos e as creanças.
Fome, desolação, luto, viuvez, miseria
Na aldeia morta. A terra esqualida e funerea
Em logar das canções da abundancia e do amor,
Do trigo verde a rir dentro da sebe em flor,
Calcinada e cruel cospe violentamente
Só o cardo torcido, epilectico, ardente,
Rompendo duro e hostil, como a praga blasfema
D'um assassino quando um carcereiro o algema.
Secaram-se de todo as fontes e os regatos.
As cobras na aridez crepitante dos matos
Silvam. O ar carboniza as arvores sequiosas
N'uma rutila poeira intensa de ventosas.
Dos montes nus além nas seccas epidermes
Os rebanhos são como um pulular de vermes.
E a bobada do céo, concha de zinco em braza,
Onde não passa a nodoa aerea d'uma aza,
Implacavel contempla a terra solitaria,
Como um sultão fitando a carcassa d'um paria!
E o tifo germinou n'esta miseria adusta.
A epedimia, a alma errante de Locusta.
Diabolica e subtil fermenta envenenada
No asfixiante esplendor da atmosphera esbrazeada.
D'entro da escuridão soturna dos casebres
Os velhos aldeões, minados pelas febres.
Agonisam; e em seu delirio derradeiro,
Entre o concavo som da enxada do coveiro
E o rouco psalmodear dos latins agoirentos,
Ouvem loucos de dor os funebres lamentos
Dos magros bois de olhar moribundo e sereno.
Que estão là baixo ao pè do estabulo sem feno,
A mugir, a mugir, por terra, abandonados
Juncto ao velho esqueleto inutil dos arados!
A espaços da profunda e tragica nudez
D'uma choupana irrompe um grito de viuvez,
Um clamor de orfandade... E o sino chora então
Lagrimas sepulcraes de bronze na amplidão.
A colera de Deus, cujo olhar encendeia,
Correu como uma loba hidrophoba na aldeia.
Não ha lume no lar, nem ha pão nos armarios.
Entre os dedos das mães famintas os rosarios
Passam piedosamente e inutilmente, em quanto
A Morte, a hiena magra e vesga, espreita a um canto
Um berço onde agonisa um anjo, ho dor cruel!
Como um roto mendigo á porta d'um vergel
Sofregamente espreita algum fructo outoniço
A tombar já sem côr d'um ramo já sem viço!
E a aldeia invoca, implora os anjos tutelares.
Morre de fome e veste as santas nos altares
Com oiro e com brocado, Os cirios noite e dia
Alumiam a branca imagem de Maria,
Como tremulos ais de luz agonisantes
A erguer-se para o céo! Procissões ululantes
De penitencias vão convulsas, desgrenhadas,
Esfacellando os pés nas pedras das calçadas,
Dilacerando o peito, arrancando os cabellos.
E com mil visões torvas de pesadellos,
Uivando a Deus em rouco e barbaro clamor
Que seja pae que veja essa infinita dór,
E lânce áquella immensa angostia, áquella magoa
Um olhar onde emfim brilhe uma gota d'agua!
..................................................................
Em vão, em vão, em vão! A tarde o sol frenetico
Morre congestionado, estonteado, apopletico,
E de manhã explue na lividez do oriente,
Caustico, a chammejar como um remorso ardente!
E nas noites febris, sem ar, sem roxinoes,
E que o azul é um brazeiro esplendido de soes
E em que parece que ha dispersas na atmosphera
As vaporisações surdas d'uma cratera,
Por detraz da montanha asperrima, escalvada,
A lua cheia, rubra, opaca, ensanguentada,
N'um silencio soturno, esmagador, que opprime,
Rompe sinistra—como a apparição d'um crime!
E comtudo n'aquella aridez flamejante,
Sem um ramo frondoso em que uma ave cante,
N'aquelle illimitado incendio abrasador,
Oh sarcasmo cruel! ha dois oasis em flor,
Com duas tropicaes plethoras de verdura:
Um é o cemiterio, o outro o passal do cura.
No cemiterio a Vida impetuosa e forte
Rompe a cantar do ventre uberrimo da Morte.
Pampanos, silveiraes, cardos, ortigas, rosas,
Plantas meigas de idilio e plantas tenebrosas,
A mandragora, a murta, a madresilva, o feto,
Tudo isto a latejar, a fecundar, repleto,
N'um emaranhamento anarchico pulula
Doido de sol, febril de seiva, ebrio de gula!
Ha uma saturnal juncto de cada cova,
Um cadaver que chega é uma iguaria nova,
Que os vermes decompõem em gangrenas protervas
Para a sofreguidão muda, obscura das hervas.
E quando do seu antro a larva tumular
Diz á planta: «Aqui tens na meza o teu jantar,
Vem comel-o!» milhões de raizes—reptis,
Sanguesugas que tem por bocas bisturis,
Vão haurir, absorver, vampirisar no fundo
D'essa cloaca obscena esse banquete immundo,
Um fetido e viscoso esterquelinio de horrores,
Que é o pão que Deus fez para engordar as flores!
E da tumba do hospicio hora a hora resvalla
Uma carga de entulho humano para a valla.
Juntam-se aos nove e aos dez, rimas de carne morta,
Na mesma cova. A edade e o sexo pouco importa.
Confundem-se no podre açougue subterraneo.
E em quanto uma raiz de lirio suga um craneo
E uma pustula dá o perfume a um nectario,
No azul celeste paira o corvo sanguinario,
O tumulo suspenso, o esquife que se eleva,
Brandindo em cada flanco uma foice de treva!
............................... Dir-se-hia que o Destino,
O velho Thug, o velho e tragico assassino,
Depois de uma hecatombe insensata e brutal,
A escondera, lançando em cima um madrigal,
Um manto de verdura e corolas vermelhas,
Todo estrellado do oiro em brasa das abelhas.
E o presbiterio? Olhae:
Branco como um noivado.
Trepadeiras á porta e pombas no telhado.
Ha n'esse ninho occulto em verdura frondosa
Como que um bem-estar simples e côr de rosa.
Era um ninho discreto, um bom ninho fiel,
Para sugar um favo a tres luas de mel.
Anacreonte, o velho erotico divino,
Contente encerraria alli o seu destino,
Pobre, alegre, feliz, sem remorsos, sem dores,
A calvicie jovial sob um chinó de flores,
O copo sobre a meza, a musa sob os joelhos,
Ao ar livre, a cantar os desejos vermelhos,
A belleza, o prazer, a juventude e o sól,
Com a graça d'um merlo e a voz d'um rouxinol.
Vejamos essa estancia idilica e tranquilla.
Mas cuidado! ha lá dentro um padre e um cão de fila.
E ambos mordem. Mas, como ambos roncam a sesta,
Entremos. Logo aqui no pateo pela fresta
Da tenebrosa adega aberto um poucachinho
Sahe um aroma intenso e rico de bom vinho.
O abade é beberrão. Casca-lhe muito e bem.
Lá pinga como a d'elle isso ninguem na tem.
Sabe da poda, é mestre! A adega até dá gosto
Entrar a gente lá n'uma tarde de Agosto.
Que frescura, que aceio e que nectar! Noé
Precisaria ali da capa de Japhet
A todo o instante, e o proprio abade e mais a ama
Tem feito d'essa adega o seu quarto de cama
Varias vezes... O amor pella-se por bom vinho.
Se Venus foi sua mãe, Bacho foi seu padrinho.
Sensata opinião que o nosso abade aprova,
Sobretudo se o vinho é velho e a mulher nova.
Nos rotundos toneis e nas cubas inchadas,
Panças monumentaes prenhes de gargalhadas,
Dormem alegremente e silenciosamente
Os trinta mil pifões que o Padre-Omnipotente,
Em seu alto designio e enfinita bondade,
Destinou para o odre insaciavel do abade.
E na fresqueira—um rico e secular thesoiro—
Ambrosias ideas velhissimas, côr do oiro,
Mormuram baixo em voz cristalina e maviosa
Uma canção de amor entre um beijo e uma rosa,
E em que a rosa abre ao beijo as petalas vermelhas
Sob frèmito alado e diaphano de abelhas.
Com tão raro elixir, que è como um sol poente,
Que já não dá calor, mas que illumina a gente,
O proprio Satamaz, faço-lhe essa justiça,
Não tinha repugnancia alguma em dizer missa,
E eu mesmo, é minha vergonhosa conficção,
Mas em suma, que diabo!... eu dava em sachristão!
E junto á dega existe a tulha sempre cheia...
Mas subamos depressa emquanto o abade orneia
A dormir pois se acorda e me conhece, foi-se
A visita e per cima arruma-me algum coice.
Vamos pé ante pé, de vagarinho. A salla
É vasta e branca. Tem nos muros a adornal-a
Sagrados corações de Jesus flamejantes,
Mães, de Deus com olhar no céo e dez trinchantes,
A traspassar-lhe o peito, um Pio nono a cores.
Cordeirinhos pascaes, anjos, araras, flores,
Tudo em missanga, e emfim um D. Miguel primeiro
A froque, que eu comprava a peso de dinheiro.
Do tecto enegrecido em bategas jucundas
Pendem bellas maçãs camoesas rubicundas,
Cachos d'uvas ainda a rir, peras marmelas,
Encaixilhado tudo á volta com morcellas.
Em seis bahús de coiro e em arcas de castanho
Guarda o cura o bragal precioso, o rico amanho
Caseirinho,—lençoes d'uma finura extrema,
Ás grozas, rescendendo alecrim e alfazema!
E, segundo se diz, tambem deve haver n'essas
Arcas monumentaes muita somma de peças.
Ao fundo a livraria: uma pequena estante
N'uma banca ordinaria e simples de estudante.
No centro tem um vão com um Christo inaudito
Nas vascas do caruncho agonisando afflicto,
Burlesco manipanço alvar de fórmas toscas,
Negro—das dejecções sacrilegas das moscas.
Soltos na estante em quatro ou cinco pratelleiras
Ripanços de orações, de sermões e de asneiras,
Que fornecem ha já trinta annos exactos
Pão de espirito ao cura e pão do corpo aos ratos.
E entre os livros ha tudo. É uma loja de adéllo.
Pacotes com rapé, um baralho, um marmelo,
Esporas, saquiteis com semente, de ervilha,
Garfos, um grande corno, um copo, uma rodilha.
Malgas com marmelada e frascos com compotas,
E até mesmo um chapeu sebento e um par de botas!
Sobre a mesa o tinteiro e o solideo. E aberto
Um breviario tal, que cheirado de perto
Fulmina, um breviario exotico, onde emfim
Ha já muito mais sebo e traça que latim!
E a todo e qualquer canto em rumas assassinas,
Marmeleiros, bordões e mócas e clavinas.
E pendendo sombria e, tragica d'um muro,
Come se fosse a pel' d'um grande monstro escuro,
A loba, um balandrau de dobra espectraes,
Feito para espantar as almas e os pardaes,
Contigua á salla existe a alcova. É lá que dorme
O hipopotamo. Vede: O catre e desconforme;
Cabiam n'esse vasto enxergão á vontade
A preguiça d'um porco e a luxuria d'um frade,
O cura espapaçado, esbandalhado, ronca,
Inuda-lhe o suor odioso a testa bronca,
O cachaço taurino e as papeiras que vão
Desde o queixo ao umbigo em graça ondulação.
A bôca comilona, erotica, sensual
Traz á lembrança o fauno obsceno e o canibal.
E a dentadura podre, esse armazem de guano,
É qual desmantelado aqueducto romano.
Que sordido animal! que bandulho! que bojo!
Tem cerdas na cabeça e nas orelhas tojo!
E o nariz? o nariz! que farol! que obelisco!
Pantagruel deu-lhe a cor, Gargantua deu-lhe o risco.
É o nariz de Falstaff, epico, em grando gala,
Purpureado e incendiado a fogos de bengala.
De quando em quando a ama, herculea mocetona,
—Um peixão!—sempre alegre e sempre brincalhona,
Vem ligeiro enxotar com precauções imensas
Os insectos sem fè e os moscamos sem crenças,
Que ousam depòr, que horror! a tal coisa indecente
Nos rubros alcantis d'esse nariz ingente.
Eu nunca vi, meu Deus, nariz tão exquisito!
Ruge como um trovão, silva com um apito!
É talvez o nariz por onde tocará
Trombeta o Creador no val' de Josaphat!
Dos mais complexos sons percorre a escala... alcoolica:
Umas vezes imita uma frauta bucolica
E outras um cavernoso orgão de Rilhafolles,
Com um grande Titan bebado a dar as folles.
As vezes um fragor rouco de temporal
Quer bramir atravez do Himalaia nasal
Do abade, mas achando os dois toneis do monte
Entupido de esterco infecto e de simonte,
Retrocede e lá vai por outro sorvedoiro
Expluir—com profundo e tremebundo estoiro!...
...................................................................
Mas que sastifação beatifica se nota
Na vasta estupidez d'aquella cara idiota!
E sabeis porque dorme olimpico e risonho
O abade? É porque teve inda ha pouco esse sonho:
Sonhou ver desfilar, oh ventura illusoria!
Um prestito pagão, um cortejo de gloria,
A acclamal-o. Na frente uma vara sombria
De bacoros roncava em côro esta poesia: