Que ella salva das chammas infernaes;
E em paga de tal dom, de tal carinho
Rogaremos ao céo pelo focinho
Lhe permitta engordar cada vez mais.
Boa pinga e bom porco alentejano,
E sempre nedio e alegre e satisfeito!...
Senhor Parocho, viva!... até p'ró anno...
Até p'ró anno... e muito bom proveito!...
O abade, vendo aquella espandosa ovação,
Cresceu como uma torre e inchou como um balão.
E ao mirar-se com garbo heroico e triumphal
Surprehendeu-se de annel e cruz episcopal!
E, impando de vangloria e atonito de espanto,
Inchou mais meia legua e cresceu outro tanto!
Contemplou-se depois com magestade ufana,
E, oh céos! viu-se vestido em porpura romana!
Cardeal! cardeal! cardeal! que honra, que posição!
E subiu de tal forma ovante na amplidão
Que o Himalaia, envolto em suas neves eternas,
Disse a um condor:—Vai ver lá cima aquellas pernas;—
—Cardeal! Não será sonho ou magico feitiço?!
Eu Cardeal!!...—Apertou entre as mãos o tontiço,
E em logar d'um chapeu tingido com zurrapas,
Encontrou o diadema olimpico dos papas!
Papa!... E de tal maneira ergueu a fronte sua
Que com ella partiu os chavelhos da lua!
Em torno do nariz e á volta das orelhas
Zumbiam-lhe tremendo os astros, como abelhas.
Ser papa! ser rei do céo e o rei do mundo!
E lá do alto do abysmo esplendido e profundo
Lançou o mar e á terra a sua benção sagrada.
E o mar mudou-se em vinho e a terra n'uma empada!
E o colosso voraz, de vêr coisas tão bellas,
Debruçou-se, agachou-se, escancarou as guelhas,
E enguliu d'uma vez o assombroso follar,
Bebendo-lhe por cima o vinho todo—o mar!
Depois empanturrado, inflado, um pouco torto,
Atirou-se a dormir mais pesado que um morto,
Arrotando trovões............................................
......................................................................
E em quanto o abade ronca e grunhe sem cuidados
Dobram plangentemente os sinos afinados,
Cortam o espaço os ais do estertor derradeiro,
E entre as germinações frescas do bom lameiro
A ègoa abacial c'oa respectiva cria,
(A quem, se fosse d'elle, o abade chamaria
Afilhada) lanzuda opipara, pacata,
Livre, sem albardão, sem freio e sem arreata.
Na monastica paz dos ventres satisfeitos
Com luserna viçosa e tenra até os peitos
Envolta no esplendor fulvo do sol poente,
Mansa, fitando o azul,—rincha orthodoxamente!
O GENESIS
Jehovah, por alcunha antiga—o Padre Eterno
Deus muitissimo padre e muito pouco eterno,
Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz:
Poz-se a esgaravatar co-o dedo no nariz,
Tirou d'esse nariz o que um nariz encerra,
Deitou depois isso cá baixo, e fez a terra.
Em seguida tirou da cabeça o chapeu,
Pol-o em cima da terra, e zás, formou o céo.
Mas o chapéu azul do Padre Omnipotente
Era um velho penante, um penante indecente,
Já muito carcomido e muito esburacado,
E eis ahi porque o céo ficou todo estrellado.
Depois o Creador (honra lhe seja [feita]!)
Achou a sua obra uma obra imperfeita,
Mundo serrafaçal, globo de fancaria,
Que nem um aprendiz de Deus assignaria,
E furioso escarrou no mundo sublumar,
E a saliva ao cahir na terra fez o mar.
Depois, para que a Egreja arranjasse entre os povos
Com bulas da cruzada alguns cruzados novos,
E Tartufo podesse inda d'essa maneira
Jejuar, sem comer de carne á sexta feira,
Jehovah fez então para a crença devota
A enguia, o bacalhau e a pescada marmota.
Em seguida metteu a mão pelo sovaco,
Mais profundo e maior que a caverna de Caco,
E arrancando de lá parasitas extranhos,
De toda a qualidade e todos os tamanhos
Lançou sobre a terra, e d'este modo insonte
Fez elle o megatheiro e fez o mastodonte.
Depois, para provar em summa quanto póde
Um Creador, tirou dois pellos do bigode,
Cortou-os em milhões e milhões de bocados,
(Obra em que elle estragou quatrocentos machados)
Dispersou-os no globo, e foi d'esta maneira
Que nasceu o carvalho o platano e a palmeira.
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Por fim com barro vil, assombro da olaria!
O que é que imaginaes que o Creador faria?
Um pote? não; um bicho, um bipede com rabo,
A que uns chamam Adão e outros Simão. Ao cabo
O pobre Creador sentindo-se já fraco.
(Coitado, tinha feito o universo e um macaco
Em seis dias!) pensou:—Deixem-nos de asneiras.
Trago já uma dôr horrivel nas cadeiras,
Fastio... Isto dá cabo até d'uma pessoa...
Nada, toca a dormir uma sonata boa!—
Descalçou-se, tirou os oc'los e chinó,
Pitadeou com delicia alguns trovões em pó,
Abriu, para cahir n'um somno repentino,
O alfarrabio chamado o livro do Destino.
E enflanelando bem a carcassa caduca,
Com o barrete azul celeste até á nuca,
Fez ortodoxamente o seu signal da cruz
Como qualquer de nós, tossiu, soprou á luz,
E de pança p'ro ar, n'um repoiso bemdicto,
Espojou-se, estirou-se ao longe do infinito
N'um immenso enxergão de nevoa e luz doirada.
E até hoje, que eu saiba, inda não fez mais nada.
FANTASMAS
I
O vigario de Deus na terra disse um dia
Aos batalhões do clero: