O REI, gracejando:

Mas o que a mim me espanta, e não entra na bola,
É sair-nos o duque um perfeito carola!
Se a raínha estivesse, inda d'acôrdo, admito…
Mas entre homens prègar sermões acho esquisito,
Meu caro duque… Estou a vê-lo qualquer ano,
Entrapado em burel, frade varatojano!

MAGNUS, solene:

Distingo, meu Senhor, distingo: sou cristão,
Co'as rédeas do govêrno e do poder na mão.
Católico e de lei, sob o ponto de vista
Administrativo, e nada mais. Como estadista,
Eu considero a Igreja uma pedra angular
Da ordem! Quero o trono achegado ao altar!
A Igreja tem prestígio! a Igreja é um sustentáculo!
Convêm ao scetro ainda a amizade do báculo!
O homem público em mim, o defensor da C'roa,
É desta opinião. Sustento-a e julgo-a bôa.
Mas cá dentro, no fôro interno, a sós comigo,
Eu, o particular e o filósofo, digo-o
Alto e bom som, digo-o de cara e sem temor:
Não há ninguêm! ninguêm! mais livre pensador!
Eu admiro Voltaire!… Eu encontro-me em dia
Com a marcha do globo e da filosofia.

O REI, galhofando:

Se a Raínha lhe sente ideas desordeiras…

MAGNUS:

Leio Voltaire, mas quero os frades!…

OPIPARUS:

E eu as freiras…