OPIPARUS, soprando o fumo do charuto:

Dou por cem libras, quem na quer? a minha parte…

MAGNUS, grandioso:

Quando d'ânimo leve o príncipe assim fala,
Não se queixem depois que a dinamite estala,
Nem se admirem de ver o país qualquer dia
Na mais desenfreada e tremenda anarquia!
Prudência! haja prudência, ao menos, meus senhores…
É grave a ocasião… gravíssima!… Rumores
De medonha tormenta andam no ar… Cuidado!
Não desanimo, é certo… Um povo que deu brado,
Uma nação heróica entre as nações do mundo,
Há-de viver… É longo o horizonte e é fecundo!…
Creio ainda no meu país, na minha terra!…
Guardo a esp'rança…

OPIPARUS:

Bem sei, no Banco de Inglaterra…
A esp'rança e dois milhões em oiro, tudo à ordem…
Não é isto?…

MAGNUS, embaraçado:

Exagêro… exagêro… Concordem…
Sim, concordem… pouco me resta e pouco valho…
Mas o suor duma vida inteira de trabalho…
Economias… bagatela… um nada… era mister…
No dia d'àmanhã, com filhos, com mulher…
Entendem, claro está… era preciso, emfim,
Segurança… Não me envergonho… Emquanto a mim,
Posso falar de cara alta… o meu passado…

OPIPARUS:

Se é mesmo a profissão do duque o ser honrado!
É o seu modo de vida, o seu ofício… Creio
Que é daí… que é daí que a fortuna lhe veio:
Ninguêm lho nega… O duque é dos bons, é dos puros…
E a virtude a render, a dignidade a juros
Acumulados… Francamente, eu noto, eu verifico
Que era caso de estar muitíssimo mais rico…
O duque foi modesto: a honra de espartano
Não a deu nem talvez a dois por cento ao ano!