Ah, o mostrengo enorme,
Eu lhe darei a cantilena!… Para agoiros,
Quatro estoiros à queima-roupa! quatro estoiros!
Surge o espectro de Nunalvares, vestido de monge carmelita. O rei desfalece de novo. Os cães investem, mas, diante do olhar sôbre-humano do condestável, recuam trémulos, como obedecendo a um fluído mágico.
O ESPECTRO DE NUNALVARES:
Por teus avós chamaste. Um falta ainda,
Falta a raíz da árvore de morte,
Que em ti, vergôntea exausta, expira e finda.
Oh, miseranda, lastimosa sorte,
A dêste coração desbaratado,
Que outrora se julgou tão puro e forte!
Deu com êle a gangrêna do pecado,
Qual um bicho escondido que apodrece
Um deleitoso fruto embalsamado.
Nada valem tenções, nem vale a prece:
É das obras que vem à criatura
O galardão e a pena que merece.
Não acuso de ingrata a sorte dura;
Volvo-me contra mim únicamente
Em meu desassossêgo e má ventura.
Tamanino inda eu era, inda inocente,
Alma cândida e pura, como a rosa
Aberta junto d'água ao sol nascente
Quando uma noite uma visão fermosa
Me aparece e me diz com voz divina,
Ao mesmo tempo clara e misteriosa: