Jurei, unido em Cristo à luz do altar,
Pôr batalha de morte a meus desejos
E meus vícios da carne assossegar.
Anos do mundo, breves ou sobejos,
Fadigações da vida tão mesquinha,
Com seus ais, com seu pranto, com seus beijos,
Tudo votei sem pena e bem asinha
À cruz do Redentor e à cruz da espada,
Ao meu Deus verdadeiro e à pátria minha,
Jurando guardar sempre, e bem guardada,
[~U]a alma pura em natureza pura,
Qual em âmbula d'oiro hóstia sagrada.
Ai, de mim! ai, de mim! faltei à jura!
Ai, de mim! ai, de mim! porque uma peste
Logo te não queimou, língua perjura?!
Ah, donosa visão, visão celeste,
Bem devera de ter descortinado
Naquelas altas falas que me deste,
Que eu, em vício d'amor sendo gerado,
Remiria na carne aborrecida
Pela grã penitência o grã pecado.
Madre senhora! ó madre estremecida!
Antes ficaras tu noiva e donzela,
E eu não abrisse o olhar à luz e à vida!
Ó padre carinhoso! ó madre bela!
Vossa culpa caíu no vosso fruto,
E, com a culpa amarga, o nojo dela!
Queixa não hei de vós; a mim imputo
Lástima e dano, que me só provêm
Dêste bichoso coração corrupto.