Por vós criado fui, como ninguêm;
Vós me guiastes com suave geito,
Desde menino a alma para o bem.

Remidor dum pecado eu fôra eleito;
Assim mo disse a cândida visão,
E mo escreveu com lágrimas no peito.

Quando tu, padre meu, alto varão,
Mulher me cometeste, logo ansioso
Se me agastou, nublado, o coração.

E toda a noite o arcanjo luminoso
Repetindo: Não deixes, filho meu,
Glória celestial por triste gôzo!

E a miséria da carne me venceu!
Ó padres! perdoai, chorai comigo,
Que o vosso algoz tirânico fui eu!

Eis aqui vosso algoz, vosso inimigo;
Por mim no purgatório estais sofrendo,
E eu sofro, alêm do meu, vosso castigo.

Oh, destino cruel! oh, caso horrendo!
A livrar-vos da falta me hei proposto,
E sou o Judas negro que vos vendo!

Nem pára aqui meu transe e meu desgôsto.
Como de olhar-me, ó sol deslumbrador,
Não se te muda em noite a côr do rosto?

Como não gelas, dize, de pavor,
Vendo que em fraco peito miserável
Cabe tromenta assim de nojo e dôr?!

Ó terra triste! ó céu inexorável!
Que ventre de mulher pariu um dia
Desaventura a esta assemilhável?!