Nobres guerras armei, como cumpria,
D'ânimo afoito a rudes castelhanos,
Desbaratando-os Deus por minha via.

Contra seu vão furor, contra seus danos,
Batalhei desde a alva alegradora,
Ao derribado ocaso de meus anos.

Sangue de irmãos verti… Vertido fôra
Novamente mil vezes, sem piedade,
Que alma não é de irmão alma traidora.

Pátria minha gostosa, quem não há-de,
Em risonho sabor, vida e fortuna
Dar por teu livramento e majestade!

Como a de fogo altíssima coluna
Vai do povo de Deus na dianteira,
Afim que se não perca ou se desuna,

Tal na frente das hostes, sobranceira,
Contra duro inimigo acovardado,
Tremeu sempre no ar minha bandeira.

É que nela Jesus ia pregado,
Jesus, rei das estrêlas, rei do mundo,
Meu capitão fermoso e sublimado.

Ordenara, porêm, o céu profundo,
Que em tal cometimento era mister
Carne sem nódoa e coração jucundo.

E estas mãos (ai do feito em que as puser!)
Tocado haviam já, tornadas lama,
Com vil desejo, em corpo de mulher.

Fôsse a Virgem celeste a minha dama,
Se, como Galaaz, herói invito,
Alcançar me propunha honrada fama.