Deus castigou-me o coração maldito:
Pois que sôbre êle ainda vem pesando
O carrêgo mortal do meu delito.

Ó cidadela da pureza, quando
Um vício te faz brecha, sem tardança,
Prestes os mais acodem galopando.

Em minha carne, um dia honesta e mansa,
Por onde entrou luxúria malfazeja,
Entrou ira e soberba, entrou vingança.

Inda me sangue o peito lagrimeja da boa e má tenção, que, desvairadas, Armaram nele horrífica peleja.

Oh, pelejas da alma encarniçadas!
São as outras uns jogos inocentes,
Com o furor das tuas comparadas.

Anjos d'asas de luz resplandecentes,
Séculos dia e noite a batalhar
Com demónios, com tigres, com serpentes!

Ah, nem ouso de espanto relembrar
Essa guerra feroz, que já não arde,
Entre meu crime duro e meu pezar…

Tão animoso, nela fui covarde;
Tão vencedor, a miúdo fui vencido,
E a vitória, se a hei, me chegou tarde.

Uma noite em que mais me vi perdido,
Com afincada raiva e crua sanha
Dos demónios ardentes combatido.

A visão me ressurge em forma estranha,
E em tão grande e mortal melancolia,
Que nunca em mim a houve assim tamanha.