Um longo véu de dó ela vestia,
Numa tal soledade e desconfôrto,
Que a disséreis a Virgem na Agonia.

Meiga, sem me falar, o olhar absorto
Pousou em mim então, como se fôsse
[~U]a madre encarando um filho morto.

No seio me verteu, divina e doce,
Lagrima d'oiro, e, com suspiro etéreo,
Silenciosa esmaiando, evaporou-se.

Ó lágrima de dôr, por que mistério
Súbitamente ao ânimo torvado
Me deste paz, clareza e refrigério?…

Todo eu me senti purificado:
Num ditoso sofrer o meu tromento,
Numa pena bemvinda o meu cuidado…

Tal o mísero rei, que vai sangrento
De perdida batalha, alfim se lança
Em ditoso e profundo acostamento.

Descobrira que a dôr é irmã da esp'rança;
E que ao alto perdão, no azul divino,
Só a humildade, a rastros, se abalança.

Já liberto de espírito malino,
Com as veras palavras de Jesus
Assentei de acordar o meu destino.

De mundanários bens fácil dispuz;
Que só virtude é oiro, e a mór grandeza
Da terra são três pregos numa cruz.

Dentro de mim, numa fogueira acesa,
Queimei glória e valor: não ficou nada
Mais que melancolia e que tristeza.