Parti a lança; pendurei a espada;
Com bordão de pastor ou de ceguinho,
Bem andamos de noite esta jornada.

Fama grande do mundo tão mesquinho,
Dando às trombetas com ardor, não vôa,
Onde vôa, cantando, um passarinho.

E onde há, ó meu Jesus, se a dor te crôa,
Se é teu vestido sangue e o vinho fel,
Pena digna de nós, que bem nos dôa?!

Sem escudo, sem cota, sem laudel,
Minha triste nudez arrecolhida
Numa samarra triste de burel,

Determinei findar miséria e vida
Lá em partes inóspitas, distantes,
Entre gente comum desconhecida.

Êstes olhos, que arderam relumbrantes,
Verteriam de dor sangue coalhado,
Qual os olhos de Job verteram d'antes.

Êstes pés, que no vício hão caminhado,
Manariam gangrêna, já desfeitos,
Como os pés de Jesus Crucificado.

Êstes braços, altivos de seus feitos,
De logar em logar, côdeas de pão
Buscariam, rendidos e sujeitos.

E esta abatida alma de cristão,
No cárcere da carne prisioneira,
À mingoa mór, à mór tribulação,

Gostosa sorriria e prazenteira,
Qual o bom lavrador, em vélha idade,
Sorri festivalmente ao pão na eira.