E, já em Deus o espírito e a vontade,
Me acolheria às solidões dum ermo,
Na derradeira angústia e pouquidade.
Lá houvera afinal benigno termo,
Se, em tão grande, humildosa desventura,
Prouvera a meu Jesus de conceder-mo.
D'El-Rei me veio o embargo; e na clausura
D'A que, chorando estrêlas, nos conforta,
Em silêncio, escondi minha amargura.
Vida do mundo, junto dessa porta,
Com o rouco fragor que tudo abala,
Aos pés, em sombra vã, me caíu morta.
Dir-se-ia que o mar perdera a fala,
E a terra se volvera em nuvemsinha,
Bastando um ai de dor a evaporá-la.
Já diversa era ali a pátria minha;
Que o trono do meu rei era uma cruz,
E o chão, banhado em sangue, o da raínha.
Ó Raínha da Angústia! ó Rei Jesus!
Venha a nós êsse império onde reinais,
Todo amor, todo esp'rança e todo luz!
Venham a nosso peito os vossos ais!
A nossas mãos, ó Cristo, os vossos cravos!
Maria, à nossa alma os teus punhais!
Venham a nós as chagas, que são favos!
Venham tua agonia e teu madeiro,
A nós, ó Rei do Céu, a teus escravos!
Dias de soledade e de mosteiro
Eu os vivi, na temerosa esp'rança
Da alva do meu dia derradeiro.