Esta dôr, que abrandou, que se fez mansa,
Ali chorou aos ais, como perdida
Num deserto, de noite, uma criança.

E oh, alívio da alma arrependida!
Quanto mais afincado era o tromento,
Mais nos ombros ligeira a cruz da vida!

Como no ar o vento sôbre o vento,
Como no mar a vaga sôbre a vaga,
Só na dôr tem a dôr sossegamento.

E com a fôlha nua duma adaga
Todo eu me prazia em revolvê-la
Dentro do coração a hedionda chaga!

Qual as tuas, Jesus, quisera eu vê-la,
De purpurina abrir-se numa rosa,
De inflamada acender-se numa estrêla.

Toda imunda, porêm, toda verdosa,
Só matéria escorria peçonhenta,
Só gangrêna letal, cadaverosa.

E eu a escarnava com a mão cruenta,
E eu lhe metia, para não sarar,
Carvões a arder na bôca pestilenta.

Mas a Virgem tristíssima, a chorar,
Lhe derramava, bálsamo divino,
O lumioso perdão daquele olhar.

Era assim, irmãmente cristalino,
O da visão angélica e suave,
Que amistosa me foi desde menino.

E, a tão cândida luz, meu pezar grave
Ia alvorando, como rocha bruta,
Que pouco a pouco se fizesse em ave.