Já da úlcera ardente, quási enxuta,
Manava um soro apenas, filho ainda,
De podridão tão negra e tão corrupta.
Hora do livramento, hora bemvinda,
Uma noite, em um sonho d'esplendor,
Ma predizeu, chorando, a Virgem linda.
E, abraçando e beijando o Redentor,
Sem angústia enfadosa, sem quexume,
Dei a alma nas mãos do Criador.
Esbulhada de vício e de azedume,
Às regiões celestes foi voando,
Como pálida luz solta do lume.
Numa névoa, a boiar, quedou sonhando:
Sonho de dôr feliz, dôr sem memória,
Névoa d'ante-manhã que vem raiando.
Não era ainda ali perpétua glória;
Mas falecera já da vida ausente
A remembrança amarga e merencórea.
Sono d'alma levíssimo, inocente,
Em músicas de estrêlas embalado,
Quem o dormir pudera eternamente!
E um véu de lua cheia, engrinaldado,
A Virgem desdobrou, em ar divino,
Sôbre a encantada paz do meu cuidado.
Era uma graça, um bem que eu não defino…
Jucundo enlêvo… candidez airosa…
Num presepe, a sonhar, feito menino…
E uma luzinha ao longe, misteriosa,
Cantando-me as canções que me cantava
Minha madre no berço, em Frol da Rosa…