Oh, descuidado alívio!… não cuidava
Que das culpas do mundo temeroso
Esta essência revel jazia escrava.
Deus a espertou do sono deleitoso,
E, por mais a punir, inda um momento
A banhou, ao de leve, em claro gôzo.
Só as estrêlas, só o firmamento
Recontar poderiam, se quisessem,
Meu desvairo, meu nojo e meu tromento!
Convinháveis palavras me falecem,
As que as bôcas dos homens deitam fóra
Tribulações daquelas não conhecem.
Lá d'alta estância donde venho agora,
Lá donde o Eterno me elegeu pousada,
Duzentos anos grandes, hora a hora,
Vi eu, alma em tromento, alma calada,
Minha pátria, a meu sangue redimida,
Por meu sangue afinal desbaratada!
Por sangue do meu sangue foi traída;
Eu que alentos lhe dei, lhe dei nobreza
Ao cabo lhe arranquei nobreza e vida!
Os filhos dos meus filhos, oh, tristeza!
A danaram com raiva tão medonha,
Que nem lôbos a hão contra uma presa.
Descendentes da míngua e da vergonha,
Réprobos eram, pois é justa a lei
Que do câncaro mau cria a peçonha.
Feze-os a sina herdeiros do meu rei,
Por que um a um no trono dessem conta
Dêste perdido reino, que eu livrei.