Ouvide:—Ela, a sorrir,
Pergunta com brandura:

«Quem primeiro de nós irá dormir
Naquela sepultura?...»

XII

O BOÉMIO

Cái sobre as coisas um luar de prata,
Luar bemdito, que enlanguesce, enleia...
Vem ao longe uma airáda serenáta,
Soluçando uma antiga melopeia...

Lá vem o tocadôr. É um vádio,
De guitarra chorosa ao tiracólo...
Passa as noites cantando pelo frio
Cantigas de saudade e desconsolo...

É um boémio, dos parias desgraçados,
De olhos profundos, vagos, erradíos
Que vivem a cantar pelos eirados,
E morrem afogados pelos rios...

É déssa raça antiga, vagabunda,
Que atravessava todas as nações
Composta de uma incrivel barafunda
De cómicos, mendigos e ladrões...

Ei-lo,—o rebento déssas raças mortas,
(Esparge-se o luar na solidão...)
Cantarolando á lua, pelas portas,
Cantigas de saudade e de paixão...

XIII