Não odiêmos ninguem. Ninguem!—Porque os que parecem maus não passam, as mais das vêzes, de uns nescios, inconscientes, irresponsáveis.

—Olhái aquêle que passa... Nervôso, cartôlo têzo a escorregar prás sobrancêlhas, bigodeiras repontônas, revirando uns olhitos pardos, de travéz, em ares de superioridade ratôna, para os que o saudam...

É um anti-clerical confésso e profésso. Amaldiçôa a padralháda com bérros de capádo. Ri de Cristo e arrota libardade. Come bem. Digére bem. Um felizardo, no entanto. Mas ide falhar-lhe em padres... Cái Troia. Contorce-se, blasfêma, barafusta com acionados de possesso.

Rabisca tropos pelas gazêtas e escrevinha, nas horas vagas, brochuras contra os jesuitas...—Quer esmagar a infame com Voltaire; com Diderot desejaria enforcar o ultimo rei nas tripas do ultimo padre, e com Falstaff beberricar bôas pingas e ingerir presuntos. Que êle não conhecerá Voltaire, nem Diderot, nem Falstaff...—Arremeda-os mal.

E afinal, coitado, é um pobre diabo... Um bom rapaz. Adora a mulher e os filhos. Tem coração. Será um imbecil... Será. Mas que temos nós com isso? O mal é dêle. E o ridículo, o peór mal...

Perdoái-lhes, Senhor, que não sabem o que fazem...—Ali vái outro,—um torturado de alma. Vive na revolta e para a revolta. Cogita em sedições e sonha com barricádas.

E afinal é um ótimo rapaz, uma bela alma. Mal empregado coração em não se enlevar num ideal de amor! E quantos pelo mundo assim, coitados, quantos...

—Outro que passa... Um operario. Vái negro das forjas, mãos nervúdas em sacudidélas bruscas, a ameaçar. É filho dessa raça obscura, que dá vida, que dá seiva ao mundo em troca de migalhas, em troca da miseria.

Nos seus olhos sangrentos, erradíos, fosforêja o clarão trágico das revoltas vingadôras...

Vamos até êle, ó rapazes. Aos operarios, ó Seminaristas! Dêmos-lhe o ósculo da Paz, num grande abraço de fraternidade, da fraternidade cristã.