Macáo, 5 de otubro de 1869.
Minha Querida Chencha.
Vosso tia e amiga
Pascoela.
9. Appendix:
(Indo Gonçalo seu caminho, apartando-se do Clerigo, topa hum Negro grande ladrão, e entra cantando buscando hum mulato: e diz Gonçalo, depois de cantar o Negro:)
| gonç. | Dize, negro, es dacôrte? | gonç. | Maistredor era orascote Que m'a mim furtou a lebre. |
| neg. | Qu'esso? | ||
| gonç. | S'es dacôrte? | neg. | Qu'hequesso que tefurtai? |
| neg. | Ja a miforro, nam sa cativo. Boso conhece Maracote? Corregidor Tibão he, Elle comprai mi primeiro; Quando já paga a rinheiro, Daita a mi fero na pé. He masa tredora aquelle, Aramá que te ero Maracote. | gonç | Hũa lebre demeu pae, De meu cunhado huns capões, E marmelos e limões; Abonda tudo lá vai. |
| neg. | Jesu,Jesu, Deoso consabrado! Aramá tanta ladrão! Jesu! Jesu! hum caralasão: Furunando sá sapantado. Jesu! cralasam. |
Pato nosso santo paceto ranho tu e figo valente tu e cinco sego, salva tera pão nosso quanto dão dá noves caro he debrite noses ja libro nosso gallo. Amen Jeju, Jeju, Jeju.
| Sa pantaro Furunando. Dize, rogo-te, fallai: Conhece tu que furtai? Porque tu nam bruguntando? | Grande canseira: Firalgo sôlto, canseira; Chovere muto, canseira; Não póde chovere, canseira: | ||
| gonç. | Perguntarei por meu pae. | Muito filho, canseira; | |
| neg. | Cal-te:
Deoso cima sai, Que furtai ere oiai. Deoso nunca vai dormi, Sempre abre oio assi, Tamanha tu sapantai. Guarda mar esso mal, E senhora Prito santo. Nunca rirá homem branco Furunando furta real. Não sabe mi essa careira: Para que? para comê? Muto comê muto bebê Turo turo sa canseira. | Nunca pariro
canseira; Papa na Roma canseira; Essa ratinho, canseira; Não vamo paraiso, grande canseira; Vira reza mundo turo turo he Canseira. Mi nam falla zombaria. Pos para que furtai? Que riabo sempreza! Abre oio turo ria. Mi busca mulato bai. Ficar abora, ratinho. | |
| Vira mundo turo
canseira: Senhor grande, canseira; Home prove, canseira; Muiere fermoso, canseira; Muiere feio, canseira; Negro cativo, canseira; Senhoro de negro, canseira; Vai missa, canseira; Prégação longo, canseira; Crerigo nam tem muiere, canseira; Crerigo tem muiere, canseira; | gonç. | Eu
aguardo meu
padrinho, Que va comigo a meu pae. Eu vou ao rio perem, Porque hei sêde e beberei, E sicais que nadarei Emquanto o clerigo vem. Leixarei o chapeirão Mettido nesta mouteira, E o cinto e esmoleira, Porque lá logo o verão, Não me aqueça outra tal feira. |
(Espreita o negro como Gonçalo esconde o chapeirão e o al, e tanto que se vai entra dizendo:)