De homens tais não motejavam os dolicocéfalos da Europa, antes estimavam profundamente Vamiré, porque sabia manejar o buril que grava no osso e no corno, e o cinzel, e o formão que desbasta a madeira e o marfim.
Apaixonado pela sua arte, tornara-se o mais famoso dos artistas entre as tribos que, na primavera, chegavam ao Oriente meridional.
Durante dias e semanas inteiras, saía do meio dos[{30}] seus companheiros, explorando solidões, trabalhando em algum retiro longínquo; e os artefactos que ele trazia das suas excursões eram o espanto da sua horda. Nem Zom seu pai, nem Namir sua mãe, se inquietavam muito com essas ausências, porque muito fiavam da fortuna do filho.
Ora, um dia de manhã, embarcou ele, e foi, rio abaixo, na sua pequena embarcação, que estremecia à menor ondulação das águas, cortadas pelo remo.
À proporção que ele perdia de vista a caverna dos trogloditas, o rio era mais largo e menos profundo, e grandes pedaços de rocha dificultavam a navegação, vestidos de musgos e líquenes. Havia ali o hino das águas extensas, o baixo grave da corrente, os rumores da pedra batida da água, um encanto de ressonâncias, às vezes penedos dispostos com simetria arquitectural em galerias abertas aos quatro ventos, nas quais soluçavam vozes de abismo.
Até às margens virgens chegava a floresta, orlada de salgueiros frágeis, povoada de choupos grisalhos, freixos plangentes, bétulas nos cabeços; atrás, a população de árvores gigantes, o cosmos dos cipós e das plântulas em briga, o mistério da natureza criadora, forças livres, a renascença sobre o hino milenário, numa penumbra de templo e de emboscada, onde palpita eternamente a alegria, o terror e o amor.
Vamiré largou os remos, dominado pela solenidade do espectáculo, encantado pela vacilação das sombras das árvores sobre a água, pelo perfume agreste da paragem, enquanto por entre varas e ervas iam passando[{31}] focinhos de herbívoros, e bandos de esturjões subiam a corrente, roçando os penedos erráticos.
Entrementes, apareceu uma ilhota.
Vamiré pôs-se a remar, e foi amarrar a canoa numa angra, entre salgueiros, no limite meridional da pequenina ilha. Batráquios, galinholas, e um adem espantaram-se. Vamiré desviou a folhagem e achou-se numa clareira, onde a terra parecia calcada e as ervas silvestres mondadas intencionalmente.
Sorrindo ligeiramente, Vamiré meteu a mão na cavidade de um ameeiro, e tirou de lá raspadeiras, lâminas, pontas de sílex, pedaços de osso, de corda, de madeira de carvalho.