Ficou por um instante em contemplação diante de uma estatueta, indecisa ainda, cuja cabeladura, testa e olhos estavam quase concluídos; e deixou-se tomar de uma beatitude religiosa, estética:

—Estará concluída, antes da lua cheia.—

Depois, arrojou o manto, foi à canoa buscar os dentes e os ossos que tinha levado, e, por muitos minutos, hesitou sobre se continuaria a estatueta, ou se trabalharia em gravuras.

Tentavam-no principalmente os caninos do espeleu. Pegou neles uma e muitas vezes. Piscando os olhos e apertando os lábios entre os incisivos, esboçou com a ponta do buril de sílex contornos imaginários. Depois, espalhando a vista em redor, e passeando pela ilhota, pareceu buscar algum modelo,—árvore, ave, peixe.

Apanhou numa enseada um grande ranúnculo aquático de corola pálida, e examinou-o atentamente.[{32}]

Uma doçura inteligente, a subtileza de estar em contacto cerebral com a natureza, uma concentração de artista, avincavam-lhe a fronte e as pálpebras. Grandes pétalas de verniz suave, anteras tenuíssimas, pedúnculo matizado de rosa, tudo isto ele apreciou, como amante da forma, com a sua retina voluptuosa, mas principalmente as linhas terminais, os contornos que o seu buril poderia reproduzir, as fronteiras da flor.

Fixando-a no solo e escorando-a com ramúsculos, tentou restituir-lhe a posição natural e aguçou o seu utensílio.

Finalmente, tomando um dos caninos do espeleu, e profundamente absorto, gravemente apaixonado, começou a traçar um ligeiro perfil, um esboço do ranúnculo.

Firme, e de bom tacto, a sua mão musculosa de atleta prestava-se ao trabalho artístico; entreviam-se já uns traços graciosos, o desabrochamento das pétalas, os pontos das anteras sobre as débeis hastezinhas.

Comovido, Vamiré quedou-se, de olhos meio cerrados e lábios mais nervosamente apertados entre os incisivos: os minutos foram bem empregados; a flor aparecia belamente sobre o fino marfim.