O homem riu-se em voz baixa e cruzou os braços sobre o peito. Em seguida porém, descontente de alguns traços, apagou-os com a raspadeira, recomeçou-os, até que surgiu a contrariedade, a luta, o momento em que o trabalho se torna pesado, eivado de cólera. Com gestos de criança-colosso, exprobrações à matéria, descaídas de braços ao longo do tronco, duas ou três vezes largou o buril.[{33}]

Mas a obstinação da sua raça fazia-o retomar o trabalho, até que terminou o esboço, corrigindo as linhas imperfeitas.

Cansado, então, ergueu-se, e não quis olhar mais para a sua obra. Abatido diante da natureza, sentiu que a melancolia lhe invadia o cérebro.

Demorou-se largamente à beira do rio. Era a grande estação fecundadora: as águas enchiam-se de uma nuvem de animais inferiores, muitos dos quais vinham do mar, subindo as correntes. As enchentes do equinócio haviam cessado mais de um mês antes, e raramente se avistavam ramos e troncos de árvores desarraigadas.

Chegou o meio dia, o grande sol, as sombras diminuídas, o ar trémulo de calor, colunas de ar ascencionais; mas, na lentura da ilhota, debaixo dos salgueiros e ameeiros frescos, era deliciosa aquela hora.

Além, na margem distante, mostrou-se um grande animal cornígero, em que Vamiré reconheceu o auroco. Vamiré adiantou-se, sem pressa, até à beira do rio ao longo de uma espécie de molhe.

O coração do caçador palpitou, à vista do enorme mamífero. Admirou-lhe a cabeça larga, inclinada sobre o rio, as pernas altas, o peito musculoso:

—Eô! Aqui está Vamiré!... Vamiré!—gritou ele ao animal, com voz retumbante.

O auroco levantou a cabeça, assombrado, e o nómada repetiu:

—Vamiré consente que vivas!—