O auroco, acabando de beber, afastou-se.
Vamiré tinha levado, para conservação sua, uma[{34}] posta de uro, previamente assada. Deglutiu-a, estendeu-se no chão e adormeceu.
Passado tempo, um rumor acordou-o em sobressalto. Vamiré viu fugir meia dúzia de ratos aquáticos.
Levantou-se de um salto, estremunhado, e pensou logo na gravura incompleta do canino. Quando a retomou, foi agradável a sua surpresa: em vez do esboço duvidoso que ele imaginava, era um bosquejo firme, exacto, de linhas elegantes.
Pegou no buril, aprofundou cuidadosamente os contornos; depois, fazendo um buraco para suspensão, na raiz do dente, sorriu de alegria diante do seu novo e belo artefacto. Apenas, por aquele dia, o seu poder criador achava-se esgotado: tentou em vão retomar a estatueta: um enfado invencível, uma desabilidade contínua, acompanhavam cada um dos seus esforços.
Descoroçoado, repôs os seus materiais e os seus utensílios na cavidade do ameeiro e ergueu a vista ao firmamento, para calcular a hora. A noite vinha ainda longe, o sol ia a meio caminho do Poente, se bem que a fresquidão se sentia já no prolongamento das sombras.
Os nemóceros zumbiam em colunas, e por cima da floresta iam-se formando nuvens translucidas.
Então um aborrecimento pesou no coração do dolicocéfalo,—um aborrecimento de saúde opulenta, de força acumulada. Esvoaçaram no seu crânio desejos indefinidos, desejos de caça, de trabalhos perigosos, de procriação.
Tentavam-no as regiões de além, a jusante do rio. Desconhecidas pelos da sua raça, excitavam-lhe a curiosidade[{35}] rude, audaciosa e pueril. Porque não havia de ir vê-las? Na sua juventude intrépida, propensa a ásperos empreendimentos, acostumada aos errores solitários, no seu cérebro de artista, de imaginação ardente, aquele desejo engrandeceu-se, definiu-se.
Inspeccionou então cuidadosamente as suas zagaias, a sua clava, o seu arpéu duplamente denteado; assegurou-se de que nenhuma veia de água ameaçava a sua canoa, e, retomando o remo, embarcou de novo.