À proporção que ele se adiantava remando, a floresta tornava-se cada vez mais densa, as margens menos definidas, formadas de humo viscoso de aluviões movediças, de escombros silvestres. A água, mais escura, era também mais vagarosa; os penedos já não apareciam; velhas árvores de mil anos erguiam-se de espaço a espaço; grandes répteis dormiam nos promontórios; e a gritaria dos papagaios encobria os murmúrios augustos da vida.[{36}][{37}]
[V
O homem das árvores]
Quando a noite escureceu o rio, Vamiré percebeu que estava imensamente longe dos confins da floresta. Assou algumas postas de um esturjão arpoado na passagem, e, mitigada a fome, vieram-lhe à memória as lendas vagas dos Pzanns:
—«Tah, ancião de cento e vinte Invernos e memória lúcida, narrava o desmoronamento das montanhas. Três gerações antes de Tah, o Oriente meridional era limitado por lagos e serras, que nem os Pzanns, nem povo algum conhecido dos Pzanns tinham jamais transposto. Mas os fogos subterrâneos expandiram-se, e o ventre das montanhas entreabriu-se.
«O abismo bebeu os grandes lagos. O espanto dominou os homens, e, desenvolveu-se uma geração inteira, sem que ninguém se atrevesse a devassar as novas regiões. Depois, Harm, o grande caçador, acompanhado pelo pai de Tah e por moços valentes, aventurou-se aos desfiladeiros cavados pelo cataclismo. E foi[{38}] assim que se descobriram as grandes planícies do Oriente meridional...»—
Sentado sob uma faia de franças trémulas, comovido por aquelas lendas, Vamiré desejou ser, como Harm, um daqueles que descobrem terras distantes.
Lembrou-se ainda de outras lendas: a história dos Pzanns aventureiros, que, mais de cem anos antes, haviam tentado explorar a floresta, e muitos dos quais tinham desaparecido sem deixar vestígios, e outros tinham regressado, contando que o rio corria eternamente por entre árvores gigantes, e que os perigos aumentavam a cada dia de viagem.
Mas nada disto desalentava o nómada. A sua curiosidade e a sua coragem crescia a cada rumor da noite, a cada emboscada que ele entrevia nas sombras.
Permaneceu largo tempo, sem sono debaixo da faia. Mas quando, enfim, o cansaço lhe oprimiu o corpo, foi buscar a sua canoa e transportou-a para a margem; depois, tendo encontrado um lugar seco, estendeu ali a pele do espeleu e, virando a canoa, cobriu-se com ela, resguardando-se contra surpresas muito rápidas. E, com a clava numa das mãos e a zagaia noutra, adormeceu.
Nem nessa noite nem nas seguintes foi Vamiré atacado pelos carnívoros. Não porque os monstros da sombra não girassem à volta da sua canoa; mas é que nenhum tentou o assalto.