Vamiré acampava ora em ilhotas, ora nas margens silvestres. Em meio da abundância de tudo, não lhe faltou carne nem frutos que mantivessem a força do homem.[{39}]

Mais de uma vez, diante da interminável floresta, de onde manavam grandes ribeiras afluindo ao rio, chegou a arrepender-se da aventura, e a tristeza tomava-lhe a alma. Pensava em que o regresso seria mais difícil que a ida; a memória inquietava-se-lhe com a história dos que não tinham regressado; e o coração enchia-se-lhe de saudade, ao lembrar-se de Zom e Namir, seus geradores, e de seus irmãos e irmãs, mais novos que ele.

É verdade que Zom e Namir o tinham já esperado por outras vezes durante dois ou três quartos de lua, e se haviam acostumado às ausências dele; mas agora, que duração teria a viagem?

Os obstáculos acumulavam-se, especialmente as cachoeiras, que Vamiré não podia transpor, senão levando a canoa pelas margens.

Por entre espinhais e grossas raízes que ressaíam da terra, por cima da acidentada areia movediça, por entre répteis e feras alapadas, árdua era a passagem; mas estes próprios obstáculos, à proporção que ele os vencia em maior número, estimulavam-no à perseverança, pela ânsia de perigos sem recompensa.

Um dia, despertou quando as aves findavam o hino da alvorada, quando o orvalho escorria das árvores como chuva ligeira. Um ruído de ramagens chamou a sua atenção. Viu avançar então um vulto cor de freixo, de andadura oscilante, aos pulos, acocorado nas mãos posteriores; a sua estatura excedia a da pantera. As suas quatro mãos, o seu rosto, os seus olhos circulares, as suas orelhas delicadamente contornadas, lembraram a Vamiré[{40}] palavras de Sboz, aquele que de entre os Pzanns penetrara até mais longe no desconhecido da floresta: naquele extraordinário ser, de braços desmedidos e peito largo, reconheceu Vamiré o homem das árvores. Estranho aos povos da Europa e quase aos da Ásia, cada período o impelia para as regiões ardentes: cem mil anos depois do êxodo da raça, as florestas meridionais, raras e espessas, conservavam apenas algumas famílias solitárias.

Vamiré teve um movimento de simpatia. Levantando-se, soltou o grito de chamar, próprio dos Pzanns. O homem das árvores parou, inquieto, espreitando com os olhos redondos, por baixo da espessura da ramaria.

Vamiré, desviando as frondes, descobriu-o de súbito.

—Hoi!... Venturoso sejas!

O homem das árvores pôs-se em pé. Coberto de pelos penugentos, de raros cabelos, de menor estatura que o nómada, mas mais largo de ombros, parecia dotado de uma força extraordinária.