A phantasia, borboleta errante, em torno á chamma... sem cessar esvoaça. A illusão passa e ella... ferida!... despenha-se na voragem. Ah! loucos sonhos que a razão desmente! Pairar nos céos... para, no fundo abysmo, baqueiar apoz! Immensa irrisão! Via o mundo qual vergel de luz, encanto e fraternaes carinhos... Sonhei venturas, porém, a sorte quiz partir o prisma que em falso brilho me occultava agrôres. Já não me alenta a esperança da suspirada calmaria que a paz me deixe entrever. Minha alma gélida e o meu ser, habitam n'um tantalo tormentoso de dôres! Sem esperança, sem conforto! O idylio foi-se... Vejo a dôr surgir sempre crescente.

É tão triste esta existencia sem uma luz que a conforte... Vida! vida! Miseravel grão de poeira immunda... tantos dissabores me has dado!... O prazer, o jubilo, os risos, a aurora... tudo pura ficção! O sol da madrugada não dura todo o dia.

Para soffrer nasci; abraço a minha cruz; busco o tormento... Não devo extranhar os espinhos da desdita. Quem foge á sua sorte? Oh! Deus... concedei-me um raio de esperança e talvez volte a ser feliz.{7}


A minha voz não canta, hoje só suspira e geme.

Os desenganos só deixaram florir humildes violetas, no meu pobre jardim; offereço-t'as, donzella... São nascidas no canteiro, regado de lagrimas... no meu coração.

Que importa que o dever, o preconceito impiedoso prohiba de adorar-te? Oh! sim... sim... na mente sempre hei-de guardar tua imagem ridente e bella. És mais formosa que as estrellas, os lyrios, as alvas açucenas e a singela violeta. Estrella da manhã, mystica rosa, teu candido sorriso tem suave expressão... Oh!... dá-me um raio de luz, visão fagueira. A tua voz tem da sereia o fementido encanto; d'uma harpa éolea faz lembrar o som; quem póde ouvir-te e não sentir a dôce calma dos lêdos dias, desapparecer, fugir? Tens um atractivo infindo, uma fragancia que só pertence á rosa. Meiga, ideal, bemdita... guarda-me no peito. Encantadora, angelica, sublime... ao vêr-te sinto o meu espirito enlevar-se ás ethereas regiões, transpor o firmamento... Collo formosissimo! arquejante... Olhos pretos, scintillando como o fulgor da estrella vespertina; n'elles descubro a doçura dos typos ideaes da Andaluzia... Olhos de um olhar tão fundo! olhos que fixam, fallam e impõem! Sempre viva, irrequieta, graciosa... Elegante e esbelta! Quem me dera repousar no quente arfar do teu querido seio...

Feição de cherubim, coração de pomba! És toda primor e esmero; és qual fulgente estrella. A luz do teu olhar... deslumbra offusca, enlouquece. Brilhante e seductora, mixto de sombra e luz, de lava e gelo, de eden occulto e precipicio aberto... prendes, fascinas, attrahes, arrebatas. Vêr-te e não sentir abrazar o peito, é só proprio de quem do amor é renegado.{8}


Não te mereço. O meu amor enlucta. Não sejas vencida pela illusão.

Mas... se o teu olhar me reanima, se és a minha esperança querida... hei-de perder-te?

Oh! não, não... mil vezes não.

Quizera ser poeta, um eximio trovador, para cantar-te em endeixas das mais bellas; minha estrella, candida flôr de neve, quizera ter de Rubens o pincel immorredouro para pintar a tua immagem bella; quizera ter de Tasso a lyra que o inspirou para cantar tua formosura... Mas do tudo careço; em vez da inspiração, apenas pobres phrases voam ao tom das rajadas da indifferença. Quem me dera engenho e arte com que cantar: o teu olhar divino; o teu collo moldado em candido alabastro; cantar: teu corpo e a sua esplendida esculptura; teus labios, abençoado porto, onde viriam soluçar as vagas de meus beijos... Acceita ao menos, meus pobres queixumes; lyrios dispersos... sem valor algum!