Era a vida, miragem seductora em quadros divinaes; era um sonho, um encanto, um rir... Agora sinto n'alma o desalento... tudo fugiu sorrindo... meus amores fenecem. Ephemera, bem ephemera foi minha felicidade; onde borboleteavam as mais douradas chimeras, ha sinceras desillusões; onde vicejava a flôr azul da esperança, medra o cardo do desengano; onde conheci sonhos de felicidade, vejo phantasias desfeitas. Sinto apenas a lethal serpente, a duvida, enroscar-se na minha alma. Hei-de orar? Hei-de crêr?{9}
Sou como a barca que ao largo perdeu o rumo. Existirei? Se existisse havia de quebrar a atroz melancholia que sinto aniquilar meu pobre coração.
To be or not to be! Ser ou não ser! O que me esconde esse dilema cruel! Ter constantemente espinhos a cravarem-se n'alma embrutecida e presa! Ser ou não ser feliz! Fatal problema! Debalde tento cantar gloria, vida, sorrisos de amor... Uma angustia profunda me prime o peito; vejo passarem os dias sem ter lenitivo, sem gosar calma! Cruel martyrio!
A vida é sonho dourado de illusões! sempre sonhar... do berço á campa, é tudo um sonho. Que fadiga atormentadora! Espinhos acerados em toda a rosa, fel em todos os amores. Na minha alma só vejo a bruma da tristeza; nem sei a causa do pallido desgosto que sinto sem cessar! Quaes ruinas de castello ogival, assim jazem na minha mente as dôces alegrias do meu primeiro amor. Amor! amor! Inferno para uns... para outros um céo aberto. Enygma eterno, eterna sphinge. Florida estrada, que uns leva á gloria... ou senda de medonho precipio. És tudo e não és nada. És vã chimera e realidade. Ou perdes ou salvas; és vida, senão morte.{10}
Minha alma que um teu sorrir seduz, que um teu olhar inflamma... enleva-se, cae e perde-se no disco d'esse brilho, no lume d'esse fogo.
Anjo formoso, flôr celeste, candido jasmim... Como poderias encher de luz e esperança a minha vida! perfumar os dias da minha mocidade! Debil como o lyrio cujas folhas transparentes tremem ao mais leve sopro da viração; teus olhos brilhantes dizem mil promessas, teem celestiaes encantos.... Como encherias a minha vida de supremas alegrias e dôces sorrisos! Sorrisos! Os teus são mais dôces que a luz da manhã, seguem-me sempre, derramam em minha alma... mil bençãos do céo. Nas longas noites de febre, quando a mente enfraquece... é a ti, anjo bemdito, é a ti que eu peço sorrisos e olhares.
Nos sonhos ridentes, que a mente povoa de ideias de amor, vejo-te, linda, nas... ondas do mar, nas petalas da rosa. Vejo-te e no meu peito palpita, em ancias; pullula o coração. Figura celeste, por ti eu deliro; meu peito anceia de dôr... vem acalmal-o n'um sonho amoroso... então... cercar-me-ha ignota harmonia e o maior encanto.