Minha alma é triste! Amo a noite e a pallidez da lua, amo os queixumes da fonte, os perfumes das flôres, o triste lamento da agoureira ave. Sinto a dôce calma na paz da sollidão e vivo do sonhar dos sonhos d'alma; é bom rever o céu d'amor; é bom sorrir ao som de uma harmonia! Librei-me sobre a aza da ave da illusão... mas tombei da esphera ideal e bemdicta, para... debalde, buscar a paz na solitude. Perdeu-se o prenuncio da aurora! Já em meu peito não sinto o iris de bonança!{13}


O amor nasce no peito e acaba no infinito.

Quando contemplo o brilho ethereo da lua... a minha alma dilatada, volita pelos espaços... como ave partindo os nós a que estava agrilhoada! Livre, na sua expansão, aspira a opalina luz e interroga a si propria porque vigor mysterioso e porque occulto poder, vem tão dôce effluvio avivar o teu olhar? Como póde em tom queixoso, tua voz dôce... gemer e ter vibrações taes que me causam alegria? Como, no olhar resumes... delirio, ardencia, paixão? Se é bello vêr-se a nympha crystallina, entre as flôres, de manso sussurando; e as aves, a gorgear, embaladas pela brisa da manhã; se é bello vêr os raios da lucina; se é bello vêr-se o mar... dôce, queixoso... beijar a fulva praia com brandura... ainda mais bello é vêr-se o sorriso em teus labios... gracioso, qual a voz d'uma meiga lyra!


És toda a minha idéa... meus suspiros, meus tristes ais... a ti mando a cada instante.

Se no desabrochar dos vinte annos, ha muita esperança formosa, muita aspiração elevada... ha tambem muita tristeza, muita dôr amarga, muito desgosto profundo. Até hoje, vi o raiar luminoso da manhã da vida, a aurora rosea de uma existencia que desponta... pelas douradas côres do prisma da illusão;... para mim, o bosque, o marulhar das vagas... tinham sempre harmonias; o canto das aves era replecto de amor; o cardo, o espinho, os goivos e os martyrios... eram rosas e jasmins... tinham mais perfume que o nardo. Ora tudo é escuro, soturno e triste; na minha vida houve luz, mas foi fugaz... como um meteoro... brilhou para bem prestes se apagar!{14}


O tempo não consome o que, pelo amor, é inscripto no peito!

Falla! quero escutar a musica sonora d'essas fallas gentis, trementes, captivantes, que desprendem teus labios, a rir... esses labios mais frescos e mais limpidos que o luar. Sorri! quero ouvir teus risos festivaes, travessos... em ondinas febris de beijos incessantes... soarem em tua bocca alegre. Fita-me! quero vêr, n'esse ideal encanto... essa luz expludir suave... n'um sorriso do céu. Deixa-me banhar a alma na essencia que evaporas; deixa-me ouvir tua voz melodiosa; quero a flôr do teu riso, quero a luz do teu olhar.