En un ameno bosque
Mi niña duerme,
Cuidado, pajarillos,
No se despierte.
Decid al viento
Que mientras ella duerme,
Que sople quedo.

E ficou depois muito triste, encostada á porta do camarim, com os olhos fitos no bico de gaz, que se abria trémulo como o leque febril d'uma hespanhola. Tanto indaguei e com tão sincera simpathia o motivo d'aquella tristeza, que cheguei a sabel-o um dia.

Coitadinha! Consuelo era filha d'uns saltimbancos. A mãe—que já tinha morrido—dançava na corda bamba, o pae fazia jogos malabares, prestidigitação, sabia lêr a buena-dicha e era um tenor excellente em barracões de feira. Uma irmãsita mais nova, a Conchita—oh! que linda!—essa dançava boleros e fandangos, no meio das praças publicas, sobre um tapete esfarrapado, ao som de um tambôr, que o pae rufava para attrahir a multidão.

A Consuelo, com as mãos fincadas nos quadris, a cabeça levantada, e a sorrir, cantava malagueñas, emquanto o pae agitava uma pandeireta byscaia com soalhas de latão!

Como era bonita não lhe faltavam galanteios e bravos.

AlzaOlé! olé! gritavam os espectadores, batendo as palmas—Alza, Consuelo!

Logo depois que a mãe morreu, principiou a ir lá por casa, emquanto o saltimbanco estava na taberna, uma velha esqualida a induzir a Consuelo que fugisse ao pae e que fosse para uma companhia de zarzuella, que um emprezario rico ia organizar. Tanto a velha lhe prégou, e sempre com prendas, com ramos de violetas e Que guapa que és! Caramba! que serás feliz! que a pobre rapariga, uma fria manhã de nevoeiro, levantou-se da cama, foi, pé ante pé, beijar a Conchita, que ainda dormia, e fugiu!

Vejam que desgraça!

Afinal, de terra em terra, de desillusão em desillusão, sem um raio benefico de esperança, que lhe fulgurasse na negrura da sorte, veio a Consuelo parar a Portugal!

—Hoje—disse-me ella—não me contentava o oiro, nem as palmas, nem nada! Trocaria tudo, por vêr meu pae e a minha Conchita!