Baldeou o cadaver ao fundo da cova, lançou-lhe por cima a terra que tinha levantado, recalcou bem com os pés juntos os ultimos torrões, e retirou-se para casa, com a enxada ao hombro!

* * * * *

Ahi vae lêr-se a historia d'essa mulher. A sua vida é a vida trivial de muitas desgraçadas.

Quando tinha apenas desoito annos, Rosa chorou as primeiras lagrimas do coração retalhado sobre o cadaver da mãe, que lhe expirou nos braços.

Ficava sósinha no mundo, a viver pobremente do seu trabalho honesto e incessante, sem uma voz consoladora que a alentasse a arrostar todas as adversidades, que a sorte lhe havia de deparar.

O grande perigo estava-lhe na peregrina formosura do rosto e na innocencia do coração, que é a formosura da alma.

Um dia o Benjamim tecelão, um rapaz alegre e bem parecido, que de ha muito lhe arrentava a porta, disse-lhe que a amava; e, para justificar a sua declaração, propoz-lhe com voz trémula a sua mão d'esposo. Mentiu-lhe.

Ao cabo de onze mezes, durante os quaes o tecelão ia inventando embargos á realisação da sua promessa, a pobre rapariga deu á luz uma filha. As primeiras alegrias da mãe deram tréguas ao sofrimento do coração ludibriado. A filha chamava-se Isabel, que era o nome da mãe de Rosa.

Depois, quando as lagrimas lhe rebentavam copiosas, Rosa tomava a creancinha nos braços, e um sorriso d'ella era-lhe um grato refrigerio para as amarguras da vida.

O operario entendeu que a filha era um vinculo mais apertado do que a estola d'um sacerdote. Propoz a vida em commum. Rosa accedeu de prompto, fiada em que o amor de pae talvez despertasse na consciencia de Benjamim a ideia do casamento, que a rehabilitasse.