O tecelão, vendo que o trabalho de Rosa bastava ás despezas da casa, deixou-se ficar uma semana sem ir á fabrica. Quando a ociosidade lhe era tediosa, ia procurar distracção na taberna mais proxima. Voltou de novo ao trabalho; mas o seu producto dispendia-o comsigo e com os amigos, ás mesas das tabernas e ás bancas do jogo, esquecendo-se de Rosa e da filha. Aconteceu Rosa adoecer da muita fadiga, e pedir algum dinheiro a Benjamim. Não teve elle coragem de lh'o negar; mas entregou-lh'o de um modo tão aspero, que offendeu o coração da desventurada mãe.

Foi ahi que principiou o calvario de Rosa!

Benjamim entrava em casa, por altas horas da noite, cambaleante e obsceno. Atirava quantos insultos lhe lembravam ao rosto da rapariga. Rosa amparava-o com brandura, soffria-lhe os escarneos com a mais santa resignação, auxiliava-o a deitar-se; e, depois, quando Benjamim, com os cabellos em desalinho, o rosto descórado, resomnava, prostrado com o peso da embriaguez, ella quedava-se a contemplal-o, com as faces cobertas de lagrimas.

O viço da sua formosura ia pouco a pouco desapparecendo. Já não tinha o mesmo brilho nos olhos, o mesmo setim na cutis, a mesma ondulação nos contornos do rosto. As lagrimas deixavam um vestigio indelevel da sua passagem, e Rosa envelhecia e esfeiava.

Benjamim, ao accordar do dia seguinte ao da embriaguez, sentia-se enfastiado da presença d'aquella velha, e sahia de casa sem lhe dirigir uma palavra de gratidão e carinho!

De uma vez—tinha Isabel sete annos—o tecelão chegou a casa n'um estado lastimoso. Dois amigos e consocios de taberna levaram-no nos braços, até á porta. Benjamim subiu a custo os degraus ingremes da escada; abriu de repellão a porta da sala, e appareceu hediondo, a tremer, com os olhos injectados, os labios convulsos, os cabellos empastados de um suor viscôso. Fez um esforço para se aproximar de Rosa. Estendeu os braços para se arrimar á parede; abriu as pernas para conservar o equilibrio; e, ao arriscar vacillante o primeiro passo, cahiu de bruços, com todo o peso do corpo, sobre o pavimento!

Isabel, que já dormia, acordou sobresaltada com o estrondo da quéda, e principiou a gritar de medo! Benjamim ergueu-se de golpe, dirigiu-se á enxerga, em que dormia a filha e espancou brutalmente a pobre creança, que emmudeceu de terror aos primeiros tratos. Accudiu Rosa, implorando com altos brados a Benjamim que perdoasse á filha; mas o bebado respondia ás supplicas da mãe com pancadas e empuxões.

Ao outro dia, a Isabel tinha o corpinho tão macerado, que mal se podia remover da cama. Rosa levantou-a carinhosamente nos braços, agasalhou-a n'umas saias de baeta, e, logo que o tecelão sahiu de casa, foi com a filha ao hospital da Misericordia. O facultativo, que observou a creança, viu, atravez das lagrimas da mãe, a causa d'aquellas contusões. A pequenita estava muito doente.

Ao terceiro dia, a filhinha chamou com voz debil pela mãe, pediu-lhe que se sentasse na enxerga, bem junto d'ella, encostou-lhe a sua loira cabecinha no regaço, e disse-lhe:

—O pae é muito mau! E a mãe chora tanto! Se eu morrer, hei de pedir a
Nossa Senhora que leve a mãe para junto de mim; quer?