Ha poucos mezes os jornaes do Porto prantearam a morte do sr. Torres, capitalista abastado, philantropo e respeitado por todos os conhecidos.
Esqueceu a confirmação das victimas, a quem elle emprestava a 28 por cento!
Oh! mas era boa pessoa e caritativa, que até deixou o retrato á ordem do
Terço e duzentos mil reis para missas de doze vintens pela sua alma!…
O ANACREONTE DE CANDEMIL
Ao declinar do dia, pela tortuosa vereda que ia dar á estrada, seguia vagarosamente o tio Ambrosio, que voltava dos campos, com a enxada ao hombro. Como áquella hora silenciosa estava o caminho deserto, ouvia-se-lhe de longe o bater compassado e sonoro dos tamancos nas pedras da calçada.
Logo adiante do carvalhal, e antes de chegar ao cruzeiro confinante ao adro, ficava a taberna. Eminente sobre a porta estava pendente o ramalho verde de loureiro, que a viração fresca da tarde agitava, raspando-o pelo cunhal da hombreira. Da frincha das portas mal cerradas sahia para a penumbra crepuscular exterior uma restea de luz amarella, que se estendia pela estrada até ao talude saibrento, que murava o caminho do outro lado.
O tio Ambrosio endireitou com a taberna, impelliu uma das portas, e entrou.
Dentro, abancados em torno da meza, estavam já os parceiros da bisca. A taberneira, matrona de papeira, seio farto e braços arremangados, assistia á conversa, sentada a um canto, com os cotovellos fincados no balcão. Junto d'ella dormia pachorrentamente um gato maltez, zebrado, encolhido sobre as patas, como um novello. Á entrada de Ambrosio o gato ergueu repentinamente a cabeça e abriu os olhos espantados; mas, depois, como a visita lhe não fosse estranha, foi deixando, pouco a pouco, descahir a cabeça, fechou os olhos, e permaneceu na mesma posição, a resonar.
Ao lado de cada freguez havia um copo de vinho; e a luz da candeia, pendurada em cima, refrangendo-se na superficie do vidro, projectava, em torno de cada copo, um circulo sanguineo.
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