O tio Ambrosio de Candemil levava a vida airada a cantar e a beber! Tinha já sessenta annos, cabellos brancos que nem uma estriga córada, voz tremula, nariz rubro e verrugoso; mas que lhe sahisse a desafio a cachopa mais palreira, que elle saltava logo:

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Não sei que mal deu agora
Nas uvas do parreiral;
Faz-me cantar toda a noite,
Como os melros do olival.
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E depois, com a jaqueta lançada ao hombro, o chapéo derrubado para a nuca, ainda o Ambrosio cantava e foliava, como um rapagão de vinte annos.

Em idade tenra e menos canceirosa, arraial em que elle não apparecesse, era como se faltasse o prégador em festa de romaria! Esperava-se por elle até ao fim. Espreitava um d'aqui, outro d'acolá; e, quando na azinhaga apparecia o chapéo de sol de paninho escarlate, era logo uma gritaria:

—Ahi chega o tio Ambrosio.

—Olha que tal elle vem!

E o guarda-sol oscillava de um e de outro lado, roçando pelos silvedos, como a vela de um navio que bordeja á tôa, perdido o rumo!

* * * * *

O tio Ambrosio entrára silencioso na taberna, accendeu um cigarro ao pavio da candeia, e encostou-se a vêr jogar. Um dos freguezes fallou-lhe em sentar-se.

—Hoje não—oppoz elle peremptoriamente.