O João do Espinhal poz-se logo de pé muito espantado. A criança, livida de frio, ao sentir o calor do lume, agitava-se no lençol, abria os olhos e a bocca, procurando com impaciencia e avidez o leite do seio materno.

—Meu rico anjinho!?—exclamava a Joaquina, bafejando-lhe as mãosinhas.—Que frio e que fome que tu tens!

Referiu ao homem como encontrára, ao voltar do rio, aquelle innocentinho abandonado no meio do tojo.

—Se o não topo no caminho, a criancinha a esta hora tinha morrido de frio.

—Mas tu que lhe queres fazer?—perguntou o marido, passado um momento de surpresa.

—Que lhe quero fazer!! Vou d'aqui pedir á mulher do Cosme que chegue o peito a este innocente; e ámanhã veremos então a volta que lhe hei de dar.

O João, immovel e callado, com os olhos postos na labareda da lareira, coçava a nuca. O que elle não queria era augmentar os encargos da familia com mais um extranho. A féria de pedreiro, que recebia aos sabbados, mal lhe chegava para o sustento da mulher e dos dois filhos; agora, se a Joaquina teimasse em ficar com o engeitado...

—É uma dos diabos!—pensava elle, franzindo os beiços.

A Joaquina sahiu de casa com a criança ao collo, e voltou pouco depois, explicando ao homem o que tinha succedido. A Josepha do Cosme tomava conta do innocente, chegava-lhe o peito; mas queria que alguem desse parte ao regedor, porque não estava para se metter em trabalhos.

—Porque—dizia a mulher—o leite que tenho, graças a Deus, chega bem para elle, sem o tirar á filha; mas, sr.ª Joaquina, é preciso que alguem de futuro tome conta da criança...