A Joaquina combinou com a visinha irem no dia seguinte a casa do regedor; e depois talvez que o fidalgo da Tojeira tivesse dó do engeitainho, e tomasse conta d'elle. E senão—insistia ella—tomo eu! Pois! Onde houver um bocado de pão para os filhos, ha de haver uma migalha para o innocente.

O João ouvia isto contrariado e sisudo, mas sem replicar. Mandou deitar os pequenos. Quando despiu a jaqueta, para se metter tambem na cama, encostou-se á ilharga da enxerga, e voltando-se para a mulher perguntou:

—Mas, ó mulher, e se o fidalgo o não quizer? Sim; vamos a futurar que o fidalgo, que é teimoso com'a burro, não está por o que vocês lhe dizem?

—Adeus!—replicou peremptoriamente a Joaquina, encolhendo os hombros.—Ao monte não atiro eu outra vez o innocente!

No dia seguinte, a Josepha do Cosme vestiu uma camisa velha á creanca, embrulhou-a n'uma baeta escarlate, e com ella ao collo, foi ter com a Joaquina. Sahiram ambas para casa do regedor. A Joaquina referiu o caso, com grandes injurias contra a desalmada que abandonou assim o filho por um inverno d'aquelles! O regedor, que era sugeito circunspecto e methodico, entendia que o verdadeiro era irem d'ali a casa do abbade.

—Primeiro que tudo, mulheres—ponderou elle—vamos a fazer d'isto uma alma christã. Uma de vocês serve-lhe de madrinha, e então o fidalgo, se estiver por isso, que seja o padrinho.

Pozeram-se a caminho da residencia.

O abbade tinha engrolado á pressa o latim da missa do dia, com grande appetite do café quente do almoço. Ia a sair apressadamente da egreja, quando viu entrar no adro as duas mulheres acompanhadas pelo regedor.

—Vae torta!—resmungou elle, a tiritar de frio, com as mãos entanguidas enfiadas nos bolsos das calças. Parou no limiar; e, logo que ellas se aproximaram:—Que temos? Perguntou com modo desabrido, batendo com ambos os pés na soleira da porta.

A Joaquina repetiu outra vez deante do abbade o mesmo que tinha dito ao regedor.