D. Bernardo da Cunha era um velho celibatario, egoista e avarento. Assignava a Nação e o Bem Publico; mas lia o Primeiro de Janeiro, que lhe dava a cotação exacta dos fundos portuguezes.
Por tradições de familia, dizia-se legitimista, com quanto na sua consciencia os correligionarios enthusiastas e crentes não passassem d'um bando de visionarios.
Vivia retirado do contacto do mundo, entre as velhas e sombrias paredes do seu solar; mas, á cautella, ia seguindo, dia a dia, as cambalhotas da politica constitucional, e sobre tudo a influencia que ella exercia na alta e baixa das inscripções. Era como um passageiro esperto d'esta velha nau combalida e desconjuntada, que tem thesouro com que possa salvar-se, no caso de naufragio!
Quando acontecia que algum velho padre correligionario ia á Tojeira, e fallava com voz pungente da immoralidade dos governos, das torpezas das eleições, da dissolução dos costumes e da perda irreparavel do paiz, o morgado, ouvidas as lamentações do Jeremias, encrespava nos labios um sorriso zombeteiro, e exclamava:
—Isto, meu caro amigo, está a acabar. É tudo uma bandalheira!
Parecia uma phrase de Tacito, escrevendo sine ira et studio, a historia da dissolução dos romanos!
Era senhor de um morgadio avultado. Tinha uma irmã mais nova, senhora de 59 annos, professa no convento de S. Salvador, em Braga, que lhe escrevia de longe em longe, falando-lhe muito dos seus achaques, e de todos os santos canonisados do agiologio christão, e dos não canonisados, inclusive o fradinho João da Neiva do Carmo.
D. Bernardo, depois que a Joaquina e a Josepha se retiraram da egreja, chamou de parte o abbade, e perguntou-lhe se devia dar alguma coisa á ama do engeitado e afilhado. O abbade era de opinião que a mulher merecia recompensa.
—Dando-lhe dois pintos cada mez?—perguntou o fidalgo.
—Paga v. ex.ª mui bizarramente, sr. D. Bernardo—disse o padre.