Viu que o cavalleiro trazia calças brancas e chapeu redondo de copa alta. Lembrou-se de ter visto alguem assim vestido, havia pouco tempo. Continuou a espreitar, e reconheceu Antonio Maria. Levantou-se. O fugitivo, que cuidadosamente vinha olhando a um e outro lado da estrada, viu-o logo. Reconheceu-o tambem. A surpresa dos dois foi igual.

—Como ficaste tu para traz?! perguntou José Maximo.

Antonio Maria parou o cavallo, depois de se ter certificado bem de que não era seguido. Contou que tinha ficado escondido na quinta do Freitas, d’onde sahira no dia anterior, já de noite, acompanhado até ao romper da manhã por um guia. Historiou como perdêra no pinhal de Palha Canna a sua fardeta, que levava ao hombro quando fugia, os seus papeis, o punhal, e a bolsa de coiro, e como esses objectos poderam ser encontrados por dois homens, que dedicadamente o haviam protegido.

—Para onde vais tu? perguntou-lhe José Maximo.

—Para o Fundão. E tu?

—Eu sei lá para onde vou?! Tu tens familia no Fundão, mas eu posso dizer que a não tenho já.

Insistiu Antonio Maria para que montasse com elle no mesmo cavallo.

—Vais derreado. Anda comigo, que este cavallo poderá por emquanto com nós ambos.

Fraca resistencia oppoz José Maximo. Aquelles dois homens eram attraidos pela mesma suggestão.

Em caminho, não trocaram uma unica palavra sobre os acontecimentos do dia 18. José Maximo evitou esse doloroso assumpto, causa da sua desgraça. Que differença entre José Maximo e os estudantes presos, que a essa mesma hora, na cadeia de Coimbra, onde tinham entrado no dia 19, só lembravam o nome de Antonio Maria para o amaldiçoar!