Acabou-se a historia.
Anninhas já o não ouvia: tinha adormecido.
De todas as pessoas da casa a mais estimada pelo Marques era, pois, a sua menina, como elle dizia orgulhosamente. Mas toda a familia do Outeiro o considerava, pela sua dedicação á casa, como o primeiro dos criados,—mais um amigo do que um serviçal.
O genio alegre do Marques, a agudeza de espirito que revelava em muitas observações e muitas phrases de uma graça desaffectada, quasi ingenua, tornavam-n’o agradavel no trato domestico, as pessoas da casa riam-se de ouvil-o, chegavam a puxar-lhe pela lingua, quando estava de maré, o que quasi sempre acontecia.
Identificado com a familia do Outeiro, o Marques era liberal como os amos, sem comtudo saber muito bem no que consistia a liberdade constitucional, e quaes fossem as suas vantagens politicas sobre o absolutismo. Mas seguiria frei Simão para onde elle fosse, prompto a defender a causa que elle defendesse.
Depois que veio D. Miguel, o Marques disse uma vez a frei Simão:
—Papeis, nas mãos de ignorantes como eu, apenas costumam servir para embrulho; mas se fôr preciso, deixar-me-hei embrulhar por um certo papel.
Este papel era a Carta.
—O quê?! perguntou frei Simão. Eras capaz de assentar praça?