Ignacio da Fonseca replicou ao corregedor:

—O que se faz em Arouca importa-me menos do que o que se passa em Cezár, onde vivo e tenho propriedades, e onde, portanto, a minha vida e haveres correm grande risco, vista a impunidade de que frei Simão de Vasconcellos está gozando com verdadeiro escandalo de todos os fieis vassalos d’el-rei nosso senhor.

—Pois vá Vossa Mercê socegado, disse Mourão Guedes, que eu mesmo me encarregarei da prisão do frade.

—Essa resposta agrada-me. Sr. corregedor, diziam os antigos portuguezes que quem o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre. Recebo as ordens de Vossa Senhoria.

Mourão Guedes conhecia de sobra o frade do Outeiro para não reputar facil a tarefa de prendel-o. Acautelou-se, pois, requisitando, para ir a Cezár, uma partida de tropa de linha. E, tomada esta precaução, sahiu um dia da Villa da Feira com destino á casa do Outeiro.

Fez cercar o edificio, e passou-lhe busca. Frei Simão não estava, por mero acaso, porque o frade olhava pouco á sua segurança individual.

As irmãs ficaram muito assustadas com a presença do corregedor e da tropa. Quando frei Simão recolheu a casa, pediram-lhe, exoraram-n’o a que tivesse mais cuidado em si. O frade ria do mallogro casual da busca, mas, a instancias das irmãs, e para tranquillisal-as, prometteu lhes que d’ali em deante tomaria maior cautela.

Mourão Guedes não gostou nada de ter espantado inutilmente a caça. Era de suppôr que, depois d’aquelle mau exito, frei Simão se preparasse para baldar uma nova tentativa de captura. Ou se entrincheiraria para resistir, hypothese consoante á sua tradição de valor, ou se homisiaria, o que daria em resultado o comico mallogro de uma segunda tentativa.

Reflectindo, achou que era melhor renovar a diligencia, mas abster-se elle proprio de tomar parte n’ella.