XXII
A paralytica
La paralysie agitante n’est pas seulement une maladie des plus tristes en ce qu’elle prive le malade de l’usage de ses membres et qu’elle le réduit tôt ou tard à une inertie à peu près absolue: c’est encore une affection cruelle par suite des sensations pénibles qu’eprouve le malade.
Charcot—«Œuvres complètes», tome I.
Havia já quatorze mezes que frei Simão estava encarcerado na cadea da Villa da Feira.
Graças á sua robusta compleição podera resistir a morte, mas o braço esquerdo ficára leso, e o ouvido correspondente perdera a audição.
Não afrouxava, porem, com estes soffrimentos o valor do seu animo corajoso, e muito menos o incommodava a ideia das enormes despesas que tinha feito no carcere, onde, durante todo esse tempo, havia sido visitado, duas e trez vezes ao dia, pelo medico e cirurgião.
O frade reagia, como um forte, contra a oppressão da desgraça, que teimava em perseguil-o. Pensava na maneira de subtrair-se ás garras do absolutismo, de fugir, para correr a Cezár, a abraçar a pobre Anninhas, victima de um destino crudelissimo, e a justar contas com os seus adversarios politicos, para vingar as desgraças que elles haviam acarretado sobre toda a sua familia.
Arriscaria a vida? Pouco lhe importava isso. Em risco estava ella desde que o feriram e prenderam. Parecia até que uma extranha fatalidade o quizera salvar dos ferimentos que recebera, para lhe preparar um genero de morte mais affrontosa, na fôrca, ás mãos dos seus inimigos.
Mas não queria agora morrer sem primeiro ter ido a Cezár: ao menos isso, já que não podia ir tambem a Arouca, libertar Margarida Candida, visto que a acclamação de D. Miguel havia estrangulado todas as liberdades publicas em Portugal.
Entrou o frade de ponderar os meios que poderiam facilitar-lhe a evasão. Eram difficeis de encontrar, a não ser pela connivencia do carcereiro. Resolveu-se a preparar o terreno para subornal-o. Mas o carcereiro, sem repellir abertamente a proposta de uma transacção n’esse sentido, temia-se da severidade com que certamente seria castigado.