O frade e padre Antonio recolheram ao Passal, e estiveram conversando largamente durante o resto da noite.
Frei Simão disse ao coadjuctor:
—Agora, meu amigo, visto que minha irmã está salva de maior desgraça, Deus louvado! resta pensar em mim. Refiro-me, sr. padre Antonio, á minha liberdade individual, a esta miseravel liberdade, cheia de duvidas e de incertesas, que eu mesmo, se a quiz possuir, tive de rehaver violentamente por meio de uma evasão,—como um salteador ou como um assassino. Mas o meu egoismo não pode ser tão exigente e tão cego, que procure acorrentar as pessoas, que eu mais estimo, aos perigos da minha aventurosa existencia. Uma d’essas pessoas é, alem da minha familia e de um desgraçado que devia fazer parte d’ella, Vossa Senhoria. Por isso, beijando as mãos ao meu generoso hospedeiro, e certificando-o de que lhe serei eternamente grato, vou-me por ahi fóra, não sei se como um peregrino sem norte ou como uma féra, que tem de emboscar-se por selvas e juncaes para não ser perseguida pelos homens.
O coadjuctor, com semblante mortificado, ficou-se a olhar para frei Simão.
Ao cabo de alguns momentos de doloroso silencio, disse elle:
—Pois que!? Vossa Reverencia, que obteve esta noute uma singular mercê, já descreu da misericordia divina!? Se os bens da terra não duram muito, porque a alma precisa purificar-se pelo soffrimento, os males não duram sempre. Sem esperança, a vida tornar-se-hia um fardo insupportavel. Mas a clemencia de Deus creou a esperança como lenitivo ás dores terrenas: é um raio de sol que adelgaça as trevas do soffrer humano. Todavia, para merecer as boas graças do Senhor, é preciso que o homem não desagradeça, por actos de desatino, os favores que a Providencia lhe quer dispensar. Sahir d’aqui, soffra Vossa Reverencia que eu o diga, é uma imprudencia sem justificação possivel. Para onde vai, para onde quer ir o sr. frei Simão? Está enfastiado da minha companhia? Tem razão. Mas o sr. abbade voltará do Porto ao cabo de alguns dias, e com elle poderá praticar e conviver com maior agrado. Entretanto, fique, eu lh’o peço, em nome da charidade christã, que sinceramente chorará se amanhã tiver noticia de que as paixões politicas fizeram mais uma victima...
—Oh! sr. padre Antonio! como eu lhe agradeço essa terna piedade para com um desgraçado! Vossa Senhoria tem-me amparado na dor como um pai carinhoso, cuja imagem eu conservarei eternamente no coração agradecido. Mas o dever de um fugitivo é... fugir. Para onde vou? Dir-lh’o-hei com o coração nas mãos. Procurarei um grande centro onde a tempestade das paixões humanas menos se sente por ter maior terreno para espraiar-se. Vou para o Porto, onde os visinhos incommodam menos, e onde ninguem me enxergará para alvejar-me com os golpes da vingança.
—E aqui? perguntou padre Antonio desconsoladamente.
—Aqui, respondeu frei Simão, a minha tranquillidade seria absoluta se apenas dependesse de Vossa Senhoria e do sr. abbade. Mas um acaso, o proprio faro da vindicta politica podia descobrir um dia o meu escondrijo, amanheceriamos com o Passal cercado por um cordão de soldados, que viriam levantar a lebre, e eu teria contribuido para acarretar trabalhos e perseguições sobre esta abençoada casa, onde a virtude mora.
—A virtude! repetiu com suave tristeza o coadjuctor. A virtude! A tão deshumana epocha chegamos, que já o não esquecer de todo a doutrina do evangelho parece virtude! Virtuoso, eu! Não, meu amigo (permitta-me que tambem lhe dê este nome) eu sou um conservador por amor da solidariedade das instituições sociaes, que são apenas o reflexo das instituições divinas, onde o principio da suprema auctoridade é a lei suprema de que depende a harmonia do universo. Não odeio a liberdade, mas temo-a, porque foi em nome d’ella que a republica romana se dilacerou e que a republica franceza se tornou sanguinaria. Se alguem me podesse asseverar que seria possivel a radicação de um regimen de liberdade moderada e sábia, tendo por base a egualdade christã, eu, sacerdote de Christo, abençoaria esse regimen como uma aurora de paz, que viria fazer a felicidade dos homens. Não defendo o rei porque é rei; o humilde Jesus nunca o foi, senão por irrisão na cruz do Calvario. Defendo, sim, a ordem, a obediencia indispensavel á manutenção das sociedades constituidas sobre o principio da auctoridade. Temo porem as demasias do povo, que, na sua cegueira, forçou a mão dos julgadores do proprio filho de Deus, e que não poderá ser mais clemente para com os filhos dos homens. A revolução franceza desacreditou-se pela loucura sanguinaria e impia, que não poupou o throno do Altissimo. Eu, indigno representante da Egreja Catholica, não posso pensar de outro modo, mas tambem, em nome da Egreja, não posso deixar de ser benigno para com os que, inspirados por um sentimento nobre, e até christão, o levam comtudo ás vezes aos ultimos excessos do fanatismo, condemnavel não só n’elles, mas em todos, vencidos ou vencedores... Vossa Reverencia desculpe. Eu precisava abrir-lhe a minha alma, porque ao hospede em quem se confia deve ser franqueado o coração e a casa, e eu não tinha honrado ainda inteiramente a sinceridade da hospedagem. Fil-o agora, porque a occasião ageitou a confidencia. E, porque peço a Deus que me não deixe cegar de todo o entendimento, nem endurecer o coração, aqui estou para continuar a offerecer a Vossa Reverencia, sob minha responsabilidade, a sombra d’este tecto, e a lealdade do meu peito.