Frei Simão, muito commovido, olhava amoravelmente no coadjuctor, e chorava, pela segunda vez na sua vida.

Dir-se-hia que as lagrimas, por tão longos annos represas, haviam tomado gosto a minorar os trabalhos de frei Simão.

Facilmente poderia o frade responder á sincera mas vulneravel argumentação do coadjuctor. Não o quiz fazer, para não correr o risco de parecer ingrato. Estivera ainda tentado a dizer-lhe que as grandes commoções sociaes são, como os grandes cataclismos da natureza, o prologo da paz e da ordem, que não se estabelecem nunca sem reacção; que Deus tirára o mundo do cahos, e que precisára tempo para agrupar harmonicamente os elementos e regular as leis por que se regem os astros na sua eterna gravitação; que a obra dos homens não podia ser mais rapida que a de Deus, mas que os primeiros desatinos de uma instituição social seriam indispensaveis para tornar apetecida a ordem e pacificação, que lhes haviam de succeder, como a bonança succede á tempestade.

O que frei Simão quiz ver, nas palavras do virtuoso coadjuctor de Cezár, não foi a sua sincera dialectica, mas principalmente a sua grande alma, santificada por nobres sentimentos, cheia de generosos impulsos;—alma ao mesmo tempo timida e forte, mas clara como o crystal.

Abraçou-o, sentiu consolação em pôr o coração de padre Antonio d’encontro ao seu coração reconhecido; mas insistiu na ideia de partir, procurando um destino, que, embora fosse desgraçado, o fosse apenas para elle.

Frei Simão deixou o presbyterio durante a noite seguinte.

Padre Antonio veio despedil-o fóra da porta, n’um anceio de commoção, que lhe roubava, por momentos, a luz dos olhos e lhe embargava a voz.

Gertrudes Magna, a respeitosa distancia do sobrinho, chorava limpando as lagrimas ao avental de sirguilha.

Dir-se-hia que se ausentava n’aquella hora uma pessoa de familia, o pupillo querido de duas almas virtuosas.

O coadjuctor, quando o vulto de frei Simão desappareceu por entre as arvores, disse com desalento á tia: