XXV
José Maximo
Eu, que esgotei tão cedo, até as fezes,
O calis da amargura;
Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado
De quanto ha vil no mundo...
Alexandre Herculano—«A tempestade».
José Maximo da Fonseca não se julgou seguro em Hespanha, onde a seita apostolica, protegida pela Princeza da Beira, poderia perseguil-o, se descobrisse a sua identidade.
Depois de ter passado enormes trabalhos, dos quaes o menor seria a fome, metteu-se aos Pyreneos, caminho de França.
Singular apêgo parecia ter á vida este desgraçado homem, a quem ella pesava como um infortunio irremediavel. Só a esperança alimenta a existencia dos infelizes, e José Maximo havia perdido a esperança. Por isso acho eu singularissima a energia com que fugia aos algozes um homem, que fôra o primeiro algoz de si mesmo.
Em França, como em Hespanha, vivia famintamente do seu officio de caldeireiro ambulante. Se ganhava dois ou trez sous, não ambicionava mais, e aturdia-se interessando-se pelos acontecimentos politicos que prefaciaram a queda de Carlos X e o advento de Luiz Filippe ao throno.