Cortaram-lhe a trança de cabello, que era farta e bella; impozeram-lhe o veu da ordem, que ella recebeu sem reluctancia.

E, n’esse momento, o sino do mosteiro dobrou n’uma resonancia funebre, que parecia gemer nas quebradas das serras imitando os arrancos plangentes de uma voz humana.

Ernestina de Carvalho, que estava na sua cella, sahiu ao corredor quando ouviu dobrar o sino.

Viu o corredor deserto. Esperou que passasse alguem. Algum tempo depois assomou ao longe uma criada, que era ajudanta da sachristã. Quando a criada se aproximou, Ernestina de Carvalho perguntou-lhe cheia d’um tão vivo interesse, que se poderia dizer presentimento:

—Quem morreu, sr.ª Carmo?

—Não morreu ninguem, respondeu a criada com accentuada ironia; foi a sr.ª D. Margarida Candida que professou hoje. Já pertence ao numero das esposas do Senhor.

—Desgraçada menina! exclamou Ernestina fechando a porta da cella com um movimento de odiosa repulsão.

E a criada, arrastando os passos ao longo do corredor, foi resmoneando indignada:

—Que figados de pedreiro-livre que tem esta rapariga! Nem santa Mafalda lhe vale! Ha de ir direita para o inferno com o marido que lhe destinam, e que é tão bom como ella! Cruzes, canhoto! Até parece que cheira aqui a enxofre!

Sóror Maria das Cinco Chagas escreveu para Chaves informando o seu parente André Pinto dos bons serviços que lhe havia prestado justamente no momento em que Margarida Candida oppunha mais escandalosa resistencia á profissão.