Frei Simão de Vasconcellos, vendo o irmão profundamente desalentado, e cada dia mais doente, lembrou-se de ir a Arouca averiguar pessoalmente se a noticia da profissão de Margarida Candida era verdadeira.

N’uma das suas frequentes visitas á cadeia de Aveiro, resolveu proceder a essa averiguação, sem dizer nada a Joaquim Maria. E, em vez de recolher á casa do Outeiro, seguiu jornada para Arouca, tomando em Macieira de Cambra um ligeiro disfarce.

Entre-sorria-lhe a vaga esperança de que a informação fosse falsa, e de poder vir dizer ao irmão: «Resurge de ti mesmo, porque a tua felicidade não está ainda completamente perdida.»

Mas, a espaços, tambem elle proprio desanimava, porque as vinganças politicas, especialmente na provincia, attingiam os maiores excessos. Até por experiencia propria o sabia. Em Cezár, a casa do Outeiro estava rodeada pelo odio dos visinhos, e se não fosse o terror que lhes inspirava a valentia de frei Simão, o odio absolutista teria já explodido brutalmente.

Um dos mais encarniçados inimigos de ao pé da porta era Ignacio da Fonseca, depois que teve a certeza, pela denuncia dos criados, de que José Maximo viera furtivamente á casa do Outeiro entender-se com frei Simão para algum fim politico, suppunha elle.

Logo os criados de Ignacio da Fonseca fizeram correr em toda a freguezia a noticia de que o patrão nunca mais daria a benção ao sobrinho, nem o queria tornar a vêr, noticia que frei Simão se apressou a transmittir para o Porto a José Maximo.

E como por essa mesma occasião apparecessem derrubadas algumas arvores na quinta do Outeiro, e incendiadas algumas mêdas de palha, frei Simão tratou de conter em respeito os seus inimigos, que deviam ser principalmente os criados de Ignacio da Fonseca, rondando por horas mortas, de clavina aperrada, as immediações da casa.

Uma noite pareceu a frei Simão que dois vultos de homem procuravam encobrir-se com o tronco das arvores. Metteu a clavina á cara, e disparou. Sentiu depois rumorejar a folhagem como agitada pelo rapido movimento de alguem que fugia.

No dia seguinte appareceu junto a um castanheiro, em cujo tronco a bala de frei Simão fôra cravar-se, um chapeu de palha, velho, sem fita. Esse chapeu fôra reconhecido como sendo o de Manel Zarôlho, criado de Ignacio da Fonseca.

Frei Simão mandou hastear o chapeu no topo do castanheiro, como ousada provocação a novas investidas. Mas os assaltantes não voltaram, receiosos da clavina de frei Simão e dos seus mortiferos zagalotes. Tomaram ainda maior medo ao frade.