Anna de Vasconcellos conhecia a firmesa de animo de José Maximo; não lhe fez a menor objecção. E com o coração dilacerado de saudade e os olhos afogados em lagrimas se despediu d’elle, descendo de mansinho a vidraça, com os braços tremulos de commoção.

José Maximo foi, como prometteu, pela casa do Outeiro, caminho de Coimbra.

Abriu-se expansivamente com frei Simão contando-lhe minuciosamente tudo o que se tinha passado no Porto. Revelou-lhe os seus desgostos e desalentos politicos. O frade comprehendeu-o, porque tambem estava desalentado desde que vira afundar-se em Villa Franca a liberdade nascente. Joaquim Maria tinha naufragado com a liberdade; achava-se a esse tempo preso em Aveiro, ainda vivo mas implacavelmente perseguido. Esta serie de dolorosos acontecimentos acabrunhára o animo varonil de frei Simão.

A identidade de circumstancias aproximára mais uma vez, intimamente, aquelles dois homens.

Depois das confidencias politicas, vieram as confidencias amorosas.

José Maximo fallou a repeito de D. Anna com a sinceridade de quem não estivesse na presença de um irmão d’ella. Amava-a mais do que nunca, mas tudo lhe fazia lembrar que não se encontrava em situação de desposal-a, como tanto ambicionava. Até Frederico Pinto lh’o fizera recordar, receiando que elle ousasse raptar-lhe a irmã. Contou que, por este motivo, nunca mais tinha voltado á casa de Santo Ovidio.

—Não o sabia, disse frei Simão. Meu irmão não m’o mandou dizer, porque calculou decerto que essa noticia me seria desagradavel. Mas parece-me que Vossa Mercê viu indevidamente um aggravo pessoal no que era apenas um aviso cauteloso de irmão mais velho. Frederico arreceiou-se talvez do caracter fogoso de Vossa Mercê e da impetuosidade das suas paixões. Mas eu não teria dado o conselho porque conheço tão bem o seu coração ardente como a sua honradez inabalavel. Comtudo—accrescentou o frade—se me achasse collocado na situação de Vossa Mercê, eu teria procedido como Vossa Mercê procedeu.

José Maximo contou o episodio da romaria de Mattosinhos.