O frade sorriu, mas d’ahi a pouco disse, referindo-se ao filho do brazileiro:
—É notável! Sempre que os amigos sahem por uma porta, os inimigos entram por outra! É o que tambem me tem acontecido. Fica Vossa Mercê tendo mais um inimigo.
O assumpto culminante d’esta entrevista era a resolução que José Maximo tomára de ir continuar os seus estudos em Coimbra, resolução com a qual se relacionava o pedido, que D. Anna de Vasconcellos mandava fazer, para regressar á casa do Outeiro.
Frei Simão applaudiu com jubilo aquella resolução, recordando as palavras que, annos antes, n’essa mesma casa, havia dito a José Maximo.
—Mas, perguntou o frade, de que tenciona Vossa Mercê viver em Coimbra?
—Do meu trabalho. Ensinarei o que me ensinaram de latim, philosophia racional e moral e rhetorica; e, emquanto não firmo creditos de leccionista, viverei do meu pé de meia. Com improbo trabalho poderei habilitar-me a ultimar ainda este anno o estudo da geometria, sem cujo exame já não é permittido a ninguem matricular-se agora no primeiro anno juridico.
Frei Simão admirava cada vez mais a corajosa e nobre alma d’aquelle rapaz, já tão contrariado, em verdes annos, pelos duros trabalhos da vida.
—Mas uma vez na Universidade poderá Vossa Mercê receber o subsidio, que a muitos estudantes é concedido, do cofre da Intendencia e da Casa Pia.
—Não me repugna esse auxilio, justamente inspirado pela necessidade de soccorrer os estudantes que se encontram nas minhas circumstancias; porém n’um regimen em que a camarilha predomina, só os aulicos poderiam obterm’o, e eu não conheço os aulicos, nem quero conhecel-os.
—Nem só os aulicos teem valimento. Além do que, eu sei que muitos estudantes desprotegidos teem solicitado e obtido o subsidio por um ou outro cofre.