Uma das coisas que mais custam a comprehender na vida do fadista é o ciume que elle tem da mulher perdida, que todos os dias se vende ao primeiro homem que passa.
Interesse? affeição? tudo isto talvez, porque o fadista vive á custa da depravação da amante, mas quando o ciume o domina dir-se-ha haver n’esse sentimento o que quer que seja superior ao interesse material.
Reconhecendo-se atraiçoado, o fadista procura matar a mulher que lhe foi desleal, e desprésa todas as conveniencias pessoaes que d’essa convivencia amorosa lhe resultavam.
É então que parece comprehender o amor e sentir o ciume como todos os outros homens.
Fóra d’esses lances, encara a prostituição da mulher como um commercio que exclue toda a idéa de sentimentalidade, e que o ajuda a viver.
Do que elle tem ciumes não é das caricias que a sua amante vende; é d’aquellas que ella pode dar por um impulso espontaneo do coração.
O mobil das grandes desordens entre os fadistas tem quasi sempre origem no ciume—este ciume de contrabando, paradoxal, que tanto custa a comprehender.
Nos Fados, a mulher perdida é cantada pelo fadista como sendo tambem uma victima da fatalidade do destino:
Não me prendeu sempre o vicio,
Tambem donzella nasci;